CANNES/BALANÇO Um festival de exceção
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quinta-feira, 29 de maio de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Encerrado domingo último, o 56º Festival de Cannes já é história. E uma história pouco memorável, que deixa um travo agridoce. Um festival de calmaria, de entressafra. Um festival que não andou lá muito bem das pernas, não por própria culpa, mas por fatores e circunstâncias que escaparam ao controle da organização. Sua preparação foi cercada por uma atmosfera difícil, entre a guerra no Iraque - se o conflito tivesse durado mais duas semanas, Cannes passaria sem festival -, a epidemia de SARS na Ásia e no Canadá, a economia mundial em sobressalto, os movimentos grevistas dos transportes e das aposentadorias em vários países da Europa.
Um festival de cinema, com a proporção ''blockbuster'' de Cannes, é uma entidade muito sensível, com um cosmopolitismo que se ressente de qualquer anomalia. A mostra foi envolvida no clima de tensão diplomática franco-americana, e essa polêmica, tão estúpida quanto a guerra em si, contaminou e intoxicou o cotidiano da Croisette pelas grossas farpas trocadas pelos jornalistas dos dois países nas edições diárias de ''Variety, ''The Hollywood Reporter'', ''Le Film Français'', ''Le Monde'', ''Le Figaro'' e ''Libération'', com desagradáveis ressonâncias nas entrevistas coletivas. Adicione-se a este quadro a sempre latente ameaça do terrorismo sem fronteiras e a disparada dos preços dos serviços na cidade e se obterá quase na íntegra a radiografia de Cannes-2003.
Para completar, há o essencial, não somente de Cannes, mas de qualquer outro festival cinematográfico: os filmes. Este ano a seleção não foi particularmente feliz, ou melhor, não pôde ser particularmente feliz. Alguns filmes muito aguardados para a mostra competitiva não foram concluídos a tempo, entre a remessa americana havia pouca qualidade, os filmes franceses foram muitos e na média apenas razoáveis, e mesmo as seções paralelas, habituais celeiros de fertilidade, neste ano ofereceram pouco de alternativo, pouco de interessante.
Mas, tratando-se do maior evento cinematográfico do mundo, o poder de imantação, o apelo magnético de Cannes parece que a tudo resiste. E esta resistência foi conduzida com a bravura de sempre. A montée de marches da escadaria no Palais, no glamour do tapete de veludo vermelho, manteve o brilho de todas as edições ostentando a semi-nudez dourada, a elegância das grifes e o esplendor das jóias ornamentando. Não faltaram divas e ''divos'' nessa prática de ritualística hipermundana que todos os anos se choca de frente com a teoria de um cinema artisticamente ultra-empenhado, numa contradição em suspenso e sempre em busca de se resolver ano após ano, e que deve se estender indefinidamente, até como fórmula assimilada e assumida de sobrevivência.
Absurda a premiação? Se pensarmos bem, não. O júri, em que pesem alguns esquecimentos, acabou recompensando não o tipo de cinema que incendeia multidões, mas aquele outro mais difícil, que dirige um olhar ao mundo conturbado e trágico de hoje, como no Afeganistão em ruínas pós Talibã (''Às Cinco Horas da Tarde'', da iraniana Samira Makmalbaf). Ou observando a solidão e a dor que destroem a vida na grande metrópole (''Distante'', do turco Neri Ceylan). Ou a opulenta sociedade ocidental com sua bela escola de uma amável cidade, onde seus jovens saudáveis e aparentemente normais abrem fogo contra os colegas (''Elefante''). Como contrapeso, mas não com menos motivação humanista, elegeu ainda a celebração das afeições mais sinceras e dos grandes prazeres do espírito contra a ameaça do império americano (''As Invasões Bárbaras'').
Fica como derradeira lembrança desse quase melancólico Festival de Cannes o efeito causado pelas palavras da atriz Isabelle Huppert na cerimônia de encerramento. Referindo-se ao terremoto que na véspera tinha feito mais de mil vítimas na Argélia, ela acrescentou: ''Penso que o cinema pode ajudar as pessoas a sobreviver aos traumas individuais e coletivos que temos que enfrentar. Diante de certas catástrofes como esta, talvez o mais oportuno fosse o silencio, mas é exatamente o cinema que nos permite superar o trauma da realidade''.


