Cannes tem abertura apenas 'light'
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quarta-feira, 14 de maio de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes<br> Especial para a Folha 2 
Assédio de multidões desde o primeiro momento, tapete vermelho impecável na escadaria do Palais, gala, pompa, glamour, clima ''comme il faut''. Como era previsto, o mais badalado festival de cinema do mundo não se perturbou com a greve que infernizou a vida não apenas de franceses, mas de centenas de participantes que anteontem tentavam chegar à Riviera utilizando qualquer meio de transporte disponível - o enviado da ''Folha'' se submeteu a uma maratona de mais de 40 horas, aí incluídos aviões ( dois e um terceiro vôo cancelado), trem (um), ônibus (dois) e um táxi ítalo-francês. Também não foram empecilhos a propalada pneumonia atípica - nenhum sinal preventivo visível, em que pese a significativa quantidade de asiáticos circulando nos domínios da mostra -, ou as diferenças políticas franco-americanas ou a priori um certo enxugamento qualitativo da seleção oficial, com a ausência de figurões habituées que não conseguiram concluir seus filmes a tempo, entre eles Emir Kusturica, Quentin Tarantino, Wong Kar-wai, Bernardo Bertolucci, Joel e Ethan Coen, James Ivory, Theo Angelopoulos.
Na tela, o filme de abertura do festival é pouco expressivo para as ambições de Cannes e para as expectativas de quem aguarda o evento sempre com interesse maior. Apenas um entretenimento razoável, o fora de concurso ''Fanfan La Tulipe'', comédia francesa de aventuras revivendo o gênero capa e espada celebrizado por Hollywood nos anos 40 e 50. Dirigida por Gerard Krawczyk, especialista em histórias de ação e um respeitável recordista de bilheteria nos limites gauleses (''Táxis'', versões 1 e 2, são sucessos domésticos recentes), esta produção é a refilmagem do clássico-cult homônimo realizado pelo mesmo cinema francês em 1952.
Na verdade, o ''Fanfan'' original, dirigido por Christian Jacques e interpretado por um ator-fetiche de toda a França, Gérard Philipe (morto prematuramente no auge da carreira), se não tinha as cores, a sonoridade perfeita e o luxuriante desenho de produção da versão 2003, explorava com evidente rentabilidade o inegável carisma de seu intérprete principal, além do frescor da novidade e da generosa presença de Gina Lollobrigida. Esses e outros atributos acabaram valendo ao filme o prêmio de direção, aqui mesmo no Festival de Cannes. O atual ''Fanfan'', escrito por Luc Besson e Jean Cosmos (o roteirista de meio século atrás), apesar dos diálogos espirituosos espinafrando a nobreza personificada por Luis XV - e por extensão todo um ancestral ''savoir faire'' dos donos da casa -, alterna uma veloz e exaustiva motricidade com alguns irritantes tempos mortos, combinação perigosa para um filme que se pretende divertimento leve, pura e simplesmente. Vincent Perez é o Fanfan-2003, liberal e libertino, espadachim eficiente e que até dá conta do corre-corre. Mas é pouco para empolgar a garotada nas matinês contemporâneas. Penélope Cruz é uma sofrível heroína Adeline.


