Cannes supera problemas e faz a festa
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terça-feira, 13 de maio de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes<br> Especial para a Folha 2 
Primeiro foi a guerra. Por mais que a organização do festival negue, as animosidades entre EUA e França em relação ao Iraque acabaram esfriando as sempre cordiais relações Hollywood-Cannes, e a presença americana, barulhenta por tradição, neste ano será mais discreta - apesar da pré-estréia mundial amanhã, aqui, do blockbuster ''Matrix Reloaded'', com a presença de todo o elenco. Depois vieram os atrasos de candidaturas à seleção, e logo após as defecções. Nomes de peso, tidos como certos por antecipação, acabaram não concluindo seus filmes a tempo, ficando de fora trabalhos de James Ivory, Quentin Tarantino, Bernardo Bertolucci, Emir Kusturica, Theo Angelopoulos, os irmãos Coen e Wong Kar-wai. Em seguida, nuvens negras trazidas da Ásia e carregadas com o vírus Sars ainda ameaçam alcançar a sempre saudável Riviera e ainda comprometer o bom andamento do Marché du Film, a maior feira cinematográfica do mundo, acoplada estrategicamente ao Festival de Cannes e, em parcela respeitável, municiada pela economia de países fortemente compradores como China e Coréias. E se tudo isso não bastasse, ontem os franceses foram à greve geral, tumultuando consideravelmente o acesso de muita gente aos domínios do festival.
Mesmo considerando a dimensão não habitual dos contratempos, a comissão organizadora - à frente o presidente Gilles Jacob e o diretor artístico Thierry Fremaux - comemora desde já mais um inevitável sucesso a partir de hoje à noite, quando será exibida fora de concurso a produção francesa ''Fanfan La Tulipe'', capa-e-espada que George Krawczyk realizou a partir do clássico homônimo realizado em 1952. Afinal, problemas não são novidade e nem motivo de pânico para Cannes, que começou em setembro de 1939 sob o signo da adversidade. Naquele ano o festival foi atropelado pelo turbilhão de fatos que precipitou a Europa (e o mundo) na Segunda Guerra. O certame só voltaria em 1946, com o fim da guerra. Foi reinaugurado numa festa apoteótica em que Grace Moore cantou ''A Marselhesa'', marcando o início de uma nova era para a França.
Desde daquele ano, Cannes virou um dos eventos mais dissecados (e mediatizados) do planeta. No princípio era só uma festa da imprensa escrita, depois passou à era televisiva e hoje tem endereço na Internet, para quem quiser acompanhá-la pela rede: http://www.festival-cannes.fr
Uma seleção mais discreta e com predominância francesa, esta da mostra competitiva da 56 edição do festival, menos apoiada em veteranos mas de qualquer forma dominada por favoritos ''habituées'' da Croisette, como o dinamarquês Lars von Trier, o russo Alexander Sokurov, o chileno-francês Raoul Rouiz e Clint Eastwood. E a paralela ''Un Certain Regard'', agora também premiando os melhores e especializada em títulos do Terceiro Mundo. De um total de 2.498 filmes (908 longas e 1.590 curtas de 81 países) recebidos e assistidos, foram selecionados 52 longas e 9 curtas representando 24 países. Entre os longas, 20 disputam a Palma de Ouro, 19 estão em ''Un Certain Regard'' e 13 são ''hors concours''. Para Thierry Fremaux, diretor artístico da mostra, ''a programação está equilibrada no plano estético, no aspecto geográfico e de acordo com a sensibilidade das platéias: cinema de autor e cinema para o grande público. Uma seleção para ser avaliada em sua globalidade''.
Além da programação oficial de filmes sob direta responsabilidade do festival, e de iniciativas especiais como a grande homenagem a Federico Fellini e a ''Lição de Cinema'' de Oliver Stone, duas outras tradicionais manifestações, não menos importantes, acontecem como efeitos colaterais e sob as bênçãos oficiosas da organização: a Quinzena dos Realizadores e a Semana da Crítica, observatórios privilegiados para a descoberta de preciosidades que somente chegarão ao público veiculados pelas salas de exceção ou ensaio.
O Brasil até que chegou bem este ano aos domínios de Cannes. A ambição maior corre por conta do longa-metragem ''Carandiru'', de Hector Babenco, que volta à seleção cinco anos depois do frustrante ''Coração Iluminado'' - o regulamento do festival aceita que o filme já tenha sido lançado comercialmente no país de origem, mas exige ineditismo em festivais. Na categoria curta-metragem, ''A Porta Aberta'', de Philippe Barcinski, é um dos nove que disputam a Palma de Ouro. Na Quinzena dos Realizadores, a mais recente experimentação de Julio Bressane, ''Filme de Amor'', promete na pior das hipóteses pelo menos ''un petit scandale'', a propósito de anunciadas explicitudes sexuais. Ainda na Quinzena, o curta ''Castanho'' traz de volta ao festival o jovem carioca Eduardo Valente, que ano passado ganhou aqui mesmo, com ''Um Sol Alaranjado'', o primeiro prêmio da mostra de curtas da Cinefondation para filmes realizados por alunos de escolas de cinema. E para completar nossa participação, uma atriz brasileira há três anos radicada na França, Clara Choveaux, é o principal nome feminino de ''Tiresia'', de Bertrand Bonello, um dos cinco representantes franceses na mostra competitiva.
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