Cannes e a paixão pelos clássicos
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de maio de 2009
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
O que é um clássico ? Como ele pode ser definido ? Há um tempo de maturação para que um filme ganhe este status privilegiado ? Existem clássicos instantâneos por conta de uma extraordinária performance estética, de uma revolucionária proposta temática, por causa de algum fato excepcional que marcou para sempre a produção ou somente a antiguidade, aliada à qualidade artística imperecível, pode garantir a imortalidade ?
Em 2004, o Festival de Cannes decidiu criar uma seção paralela, ''Cannes Classics'', que cuidasse da difusão de obras exponenciais da história do cinema, filmes que marcaram épocas e ajudaram a construir um verdadeiro patrimônio de imagens preciosas.
Mas para disponibilizar um acervo de filmes desta magnitude seria necessário lidar com material em excelente estado de uso (leia-se exibição), o que não vinha sendo a regra. Felizmente a tecnologia a serviço do cinema trabalha cada vez com maior determinação (e precisão) para recuperar e restaurar obras-primas da sétima arte.
Nesta 62 edição recém-encerrada na Côte d'Azur, o diretor Martin Scorsese, presidente de honra da World Cinema Foundation, conversou com os jornalistas sobre sua tarefa de ''salvador'' de filmes. Segundo ele, trata-se de um ''combate sem fim, destinado a sobrevivência de velhos e bons filmes de todos os países, a fim de que possam ressurgir em salas e posteriormente em DVD''.
Ele mesmo se encarregou de apresentar alguns dos filmes programados na resenha 2009, como ''O Sapatinho Vermelho'', de Michael Powell e Emerich Pressburger (1948). ''Vi este filme pela primeira vez na tevê, em preto e branco, em meio a propagandas quando tinha 9 anos'', confidenciou ele. ''Teve enorme influência em minha formação e na de numerosos diretores atuais. Brian de Palma, por exemplo, decidiu fazer cinema depois de ver o filme.'' Outros filmes restaurados foram exibidos ao longo das duas semanas do festival.
A cópia de ''As Férias de Monsieur Hulot'', de Jacques Tati, foi uma apoteose, com a Sala BuÀuel lotada, principalmente de jovens. Entre as raridades, o mítico filme francês inacabado de Henri-Georges-Clouzot, ''L'Enfer''(1964).
O brasileiro ''Limite'', única obra do mítico Mario Peixoto, está atualmente sendo recuperado pela Cineteca di Bologna em colaboração com a Cinemateca Brasileira e com o diretor Walter Salles. Provavelmente será apresentado na seção Cannes Classics, em 2010.


