Cannes antecipa candidatos
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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Encerrado há duas semanas o Festival de Berlim, primeiro grande evento do calendário anual de mostras internacionais, começou a contagem regressiva para a 56 edição do Festival de Cannes. É a passarela número um do chamado cinema de arte, local privilegiado onde os mais notáveis cineastas-estilistas lançam modelos e novidades que serão desfilados e avidamente consumidos em primeira mão, difundidos durante a temporada e provavelmente imitados e transformados em ''prêt-à-porter'' por jovens aspirantes a um lugar na história do filme. Ainda que Cannes venha nos últimos tempos em processo de ''deselitização'' artística, abrindo os flancos para o descartável entretenimento globalizado, permanece, no entanto, a condição de templo onde predomina o culto ao universo do cinema de arte e onde se segue venerando, como verdadeiros autores, os cineastas de prestígio. Acima inclusive do status de qualquer astro da moda ou do poder orçamentário dos produtores, eles se reúnem em data e espaço geográfico definidos: em maio de cada ano (14 a 26, a edição 2003) chega a oportunidade única de estrear os chamados filmes autorais, ansiosamente aguardados.
Entre os projetos mais cobiçados pela mídia especializada e pelos compradores de filmes do mercado paralelo segmentado, várias produções vão ser vistas em premiére mundial daqui a três meses no festival da Côte d'Azur, em competição ou nas várias mostras colaterais. A seguir, algumas que prometem intensa intervenção mediática:
2046 Depois de conquistar festivais, a crítica e o público (!) de boa parte do mundo com títulos como ''Felizes Juntos'' e ''Amor à Flor da Pele'', o talentoso diretor Wong Kar-Wai está há três anos filmando ''2046'', ambicioso drama futurista rodado em Hong Kong com vários atores asiáticos, entre eles a dupla-fetiche Tony Leung e Maggie Cheung (''Amor à Flor da Pele''), Zhang Zhyi (a jovem revelação de ''O Tigre e o Dragão'') e a estrela pop japonesa Kimura Takuya. Conhecido como realizador inconformista e perfeccionista, Kar-Wai decidiu há um ano desprezar quase todo o material já filmado e praticamente recomeçar do zero. Hoje o custo ultrapassa os 15 milhões de dólares, cifra astronômica para a produção de arte tanto na Europa quanto na Ásia. Mas o justo e crescente prestígio do diretor é suficiente para recuperar o investimento em mercados lucrativos como França e Japão.
Saraband Aos 85, Ingmar Bergman felizmente retoma o caminho das imagens, que há alguns anos dizia ter abandonado definitivamente. E ninguém perde por esperar aquela que já se prenuncia como mais uma obra-prima do introvertido maestro de tantas obras-primas sobre o território da alma e tortuosas adjacências. Realizado em vídeo para a televisão sueca e assim deverá ser exibido em Cannes, com certeza fora de competição , ''Saraband'' é uma sequela do clássico ''Cenas de Um Casamento'', tortuosa dissecação da vida conjugal dos personagens vividos por Liv Ullman e Erland Josephson, há 30 anos. Bergman, um dos raros pensadores do século 20 que escolheu o cinema como mídia, quer saber agora o que foi feito daquele ''nosso inferno de ontem''. O que restou, quem sobreviveu, de que maneira, o que mudou, por dentro e por fora. O acerto de contas deve incluir a náusea da civilização cristã-ocidental, bem ao feitio da ótica bergmaniana.
Crueldade Intolerável Pelo menos esta é a tradução literal do ''working title'' (título de trabalho, ou provisório) original. Dos irmãos Joel e Ethan Coen, criadores de ''Fargo'', ''E Aí Meu Irmão, Cadê Você ?'' e do mais recente ''O Homem que Não Estava'', entra agora em fase de pós-produção ''Intolerable Cruelty'', mix de comédia romântica e thriller sobre enganos e vinganças em torno do casamento protagonizado por uma mulher oportunista (Catherine Zeta-Jones) e um advogado cínico e mulherengo (George Clooney). Cannes sempre gostou dos Coen e de sua cínica atração pela tragicomédia kitsch, pelo brega com frequência tingido de sangue vivo. Por isso e muito mais foram transformados em cult definitivo a partir da Palma de Ouro dada a ''Barton Fink Delírios de Hollywood'' em 1991.
Kill Bill A muito esperada volta de Quentin Tarantino, ex-jovem prodígio que em 1994 sacudiu a Croisette com o impacto da originalidade narrativa de ''Pulp Fiction'', recompensado com a Palma de Ouro. Nesses quase dez anos e apenas mais um título na filmografia (''Jackie Brown''), o diretor não confirmou a natural expectativa da crítica. Durante este tempo envolveu-se em projetos alheios, como produtor, roteirista ou ator, sempre adiando um retorno que as pressões fariam inevitável. Depois de longa e complicada gestação, ficou pronto afinal ''Kill Bill'', aventura com artes marciais. Uma Thurman é a assassina profissional traída por sua organização. Quase morta, sai de um coma de cinco anos para se vingar do ex-chefe Bill (David Carradine substituindo Warren Beatty, que desistiu do papel).
Le Temps de Loups Depois de ganhar vários prêmios há dois anos com a polêmica proposta de ''A Professora de Piano'', Michael Haneke, alemão radicado na Áustria, volta a Cannes com ''Le Temps des Loups'', interpretado pelas divas francesas Béatrice Dale e Isabelle Huppert. É a refilmagem do policial homônimo de 1969, dirigido por Sergio Gobbi e interpretado por Robert Hossein, Charles Aznavour e Virna Lisi.
Dogville O dogmático profissional Lars von Trier, diretor controvertido e doutor em marketing pessoal, volta às luzes festivaleiras três anos depois da Palma de Ouro-2000 com ''Dançando no Escuro''. Sempre experimentando, o dinamarquês um dos ideólogos e praticante hoje revisionista do Dogma 95 realizou ''Dogville'' nos Estados Unidos por 9 milhões de dólares, inteiramente em estúdio e com elenco de peso: Nicole Kidman, Ben Gazzara, Chloé Sevigny, Lauren Bacall, James Caan, Jeremy Davies, Udo Kier, Stellan Skargard, Philip Baker Hall. Segundo as primeiras informações, Lars von Trier teria apostado em alto grau de improvisação dos atores e realizado um obsessivo trabalho de iluminação, som e música para amplificar a atmosfera dramática e explorar o conceito central do argumento (a bondade), ambientado num pequeno povoado nas montanhas.
Outros títulos que aparecem no ranking de apostas como prováveis selecionados em qualquer uma das prestigiosas paralelas são ''Details'', do sueco Kristian Petri; ''The Piano Tuner of Earthquakes'', dos irmãos americanos Timothy e Stephen Quay; ''Alila'', do israelense Amos Gitai; ''Errance'', do francês Damien Odoul e '' Waiting for the Clouds'', de Yeasim Oustaglou. Do Brasil, a única alternativa aparentemente viável para a seleção de Cannes é ''Carandiru'', em processo de finalização. Quem já viu diz maravilhas desta adaptação que Hector Babenco fez do best-seller de Dráuzio Varella.


