Cannes, ano 51
CANNES,
ANO 51
Começa hoje a maior festa do
cinema mundial. O Brasil
concorre com filme de Babenco
Carlos Eduardo
Lourenço Jorge
Enviado especial
Divulgação
Cena de Coração Iluminado, de Hector Babenco concorre em Cannes: Brasil volta a buscar a glória em seu esforço de recuperação cinematográficaA
atriz francesa Isabelle Huppert abre oficialmente hoje às 20 horas (horário local), no Grande Auditório LumiSre, o 51ºFestival Internacional do Filme de Cannes, sul da França. Logo depois, quando a produção norte-americana Primary Colors, de Mike Nichols, for exibida hors-concours, vai se repetir um procedimento nos últimos anos muito frequente nos grandes certames cinematográficos europeus. Vistos e recusados por uma rigorosa comissão de seleção - este ano foram eleitos para a competição 22 longas entre 568 inscritos de 74 países, um recorde - alguns filmes comercialmente mais ambiciosos de grandes companhias norte-americanas acabam indo à festa por vias transversas e por motivos mais ou menos óbvios. Para não criar caso com as major e seu poder de fogo sempre incômodo, espaços nobres mas alternativos são abertos, colocando-se os exemplares em situação de visibilidade privilegiada. Para esses filmes, a única premiação que conta é o trânsito livre e o espaço via de regra generoso obtido na mídia de todo o mundo presente ao festival. É nessa situação que também se aguarda o Godzilla de Roland Emmerich, escalado como filme de encerramento de Cannes-98, no dia 24. No fundo, o marketing é também turístico, já que se trata de grandes atrações.
Com um cinquentenário marcado ano passado pela qualidade duvidosa de boa parte dos longas- metragens em concurso, Cannes tenta agora provar que a safra 98 é bem superior, e que o olho da seleção destacou, entre trabalhos dos mais variados centros de produção, o que realmente interessa. Curiosamente, quem tem maior quantidade na competição são os americanos, independentes, é claro. São cinco filmes, em comitiva promissora. Obras dos diretores Terry Gilliam e Hal Hartley devem garantir boas sessões de polêmica. O ator John Turturro comparece assinando Iluminata. Nada comparável, no entanto, ao que se seguirá à exibição de Os Idiotas, do dinamarquês Lars von Trier, desde já sendo anunciado como o grande frisson pós-pornô da década.
Dupla surpresa latino-americana. O colombiano Victor Gaviria concorre à Palma de melhor filme com La Vendedora de Rosas, drama social tendo Medellin como cenário. E o Brasil, depois do triunfo de Walter Salles e Central do Brasil há três meses em Berlim, volta a buscar glória e reconhecimento para seus esforços de recuperação cinematográfica. Agora é a vez de Hector Babenco e Corazón Iluminado, um mergulho autobiográfico do diretor, uma jornada afetiva à procura de fantasmas e amores. A co-produção argentino-brasileira, também com participação francesa, foi escrita a quatro mãos, as de Babenco e do escritor argentino Ricardo Piglia.
Vários diretores anteriormente premiados estão de volta à competição. Nani Moretti comparece com Aprile, que se anuncia como uma espécie de continuação de Caro Diário. Os inglêses John Boorman e Kean Loach apresentam, respectivamente, The General e My Name is Joe, sobre um árbitro de futebol. Há ainda concorrentes da Dinamarca, Formosa (dois diretores), Grécia, Itália, Rússia, Austrália e a representação da casa, com quatro títulos. Todos os selecionados para a mostra competitiva concorrem à Palma de Ouro para melhor filme, o Grande Prêmio do Júri, prêmios para melhor ator, atriz, diretor e roteiro. A critério, poderá ou não ser atribuído o Prêmio Especial do Júri. Este ano, a comissão julgadora será presidida pelo cineasta Martin Scorsese, que terá a companhia das atrizes Leana Olin, Sigourney Weaver, Winona Ryder e Chiara Mastroiani, dos diretores Chen Kaige, Michael Winterbotton e Alain Corneau, da escritora cubana Zoé Valdez e do cantor e compositor francês MC Solaar.
Depois de ser esnobado pelo Festival durante toda sua carreira, e depois de ter ele mesmo esnobado a festa dos 50 anos de Cannes, quando não compareceu ano passado para receber a Palma das Palmas conferida por um júri somente de diretores laureados pelo Festival, o veterano Ingmar Berman - 80 anos em 14 de julho - está de volta, agora com um filme feito para a TV sueca, In The Presence, previsto para a mostra paralela não-competitiva Un Certain Regard. Desde já um dos mais singulares eventos este ano em Cannes. Outros nomes de prestígio em mostras paralelas - Quinzena dos Realizadores, Semana da Crítica - são o japonês Shoei Imamura (Palma de Ouro em 97 por A Enguia), o espanhol Carlos Saura, o ator americano Robert Duvall, estreando na direção com O Apóstolo, o veteraníssimo e sempre jovial português Manoel de Oliveira e o mexicano Arturo Ripstein.
Outras atividades paralelas do Festival são o concurso de curtas-metragens e o Mercado Internacional do Filme, a maior feira de compra e venda de produções cinematográficas do mundo. O número de participantes do MIF dobrou nos últimos dois anos, com 4.500 profissionais represetando 1.420 companhias de 71 países. Para este estão previstas 900 projeções em 25 salas localizadas nos principais hotéis e em outros pontos da cidade.





