Cannes - Era de se esperar, mas é sempre incomodo, quando não assustador. Para garantir que nenhum estilhaço do 11 de setembro sequer arranhe a imagem da maior festa do circuito cinematográfico mundial - aí incluídos a integridade física e o bom humor de toda a comunidade constituida por festivaleiros dos mais distantes limites planetários - este ano a organização do 55ºFestival de Cannes montou um minucioso aparato de segurança. Mas não apenas nos limites do Palais. Todos os locais ligados ao Festival - hotéis, principalmente - estão desde o início da semana com vigilância redobrada, com direito à detetor de metais, revista em bolsas, sacolas, mochilas, pacotes, malas, valises e volumes diversos e similares. É provável também que a preocupação das autoridades desta parte da Riviera tenha aumentado depois de conhecidos os resultados da recente eleição presidencial. Apesar de derrotado, o ultradireitista Jean-Marie Le Pen obteve no colégio eleitoral de Cannes o maior percentual em toda a França, 30,2 % no segundo turno. A diversidade étnica, disseminada e visível aqui em cada esquina, pesou definitivamente no voto dos franceses ‘‘nacionalistas’’. Some-se a isso, afinal, a pouca afinidade entre este eleitorado e certas atitudes éticas e estéticas de considerável parte dos 90 filmes da seleção oficial deste ano e está justificado o excesso de zelo policial. Mas melhor sobrar que faltar, devem dizer os parentes de mortos e os sobreviventes do WTC.
Ainda que o filme-escândalo esteja em baixa como atração popular do Festival, segundo pesquisa da revista ‘‘PremiSre’’ que chegou às bancas ontem (somente 6 por cento dos entrevistados ligam a palavra ao evento), um dos quatro concorrentes franceses à Palma de Ouro é descrito pela mídia como capaz de provocar reações extremadas. ‘‘Irréversible’’, de Garpar Noé, traz avisos de tormenta nos céu da Croisette por conta, entre outras transgressões, de uma agressividade crua, ‘‘insuportável’’, arriscam alguns. É esperar para ver.
E ontem à noite, finalmente, Woody Allen estreou nas escadarias púrpuras e aveludadas do Palais. Ele e parte do elenco de ‘‘Hollywood Ending’’ abriram oficialmente o festival, fora de concurso e para uma platéia somente de convidados. Mas horas antes o filme foi visto exclusivamente pela imprensa, que em seguida recebeu o diretor e a equipe para a coletiva.
Por partes. O filme (leia texto nesta página), é o 31º de uma carreira como diretor iniciada em 1969, promete mais do que afinal entrega, mas ainda assim é um Woody Allen quase a rigor. O que é um elogio.
Aos 67 anos, ao vivo na mesa do Théatre Claude Debussy, Woody Allen continua aquele mesmo ‘‘Assaltante Bem Trapalhão’’ do filme de estréia. Só que com rugas e grisalho. No resto está como sempre, franzino, de olhos bem abertos e expressão de perplexa vivacidade, a mesma calça bege de veludo cotelê. Na verdade, poderia ser uma reedição de ‘‘A Rosa Púrpura do Cairo’’. Foi como se tivesse caído da tela para a coletiva. Merecia perguntas melhores do que as dirigidas a ele, mas considerando sua estréia pessoal em Cannes, o resultado foi bom. Sobre as relações com Hollywood, analisou por extensão os poucos cineastas que desde as décadas de 30 e 40 lutaram para fazer bons filmes, apesar da indústria sempre interessada somente em fazer dinheiro, desprezando qualquer tipo de risco.
Não se considera influência de ninguém ou do que quer que seja. Repetiu o que já se sabia: foi ao Oscar convidado, como uma espécie de embaixador honorário de Nova York, uma maneira de ajudar a reeguer a moral da cidade depois do 11 de setembro. E veio a Cannes como um forma de agradecer aos franceses pela acolhida sempre generosa que deram a seus filmes - aliás, a todas às manifestações artísticas americanas reconhecidas antes na França, como a literatura, a música (jazz) e o cinema. ‘‘Mas em seguida me recolho à minha casa’’. O final de ‘‘Hollywood Ending’’, a propósito, soa como (mais) uma declaração de amor aos franceses. Quanto ao argumento de seu filme, acha que poderia ser muito bem desenvolvido por Chaplin, Buster Keaton ou Jacques Tati.
E quanto à primeira vez na ‘‘montée de marches’’ - a subida da escadaria para a noite de gala - em Cannes, confessou-se ‘‘apreensivo, quase em pânico, mas já aluguei o smoking e não dá para voltar atrás’’.

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