Cannes abre com homenagem à ONU
CANNES ABRE COM
HOMENAGEM À ONU
Festival comemora 50 anos da Declaração dos
Direitos Humanos, com a presença de Kofi Anan
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Enviado especial a Cannes
Patrick Hertzog/France Presse
John Travolta e Emma Thompson: presença irretocável na noite de abertura do Festival de CannesT
odos os homens nascem livres e iguais em direitos. Há 50 anos, o francês René Cassin redigia a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Anteontem à noite, a solenidade de abertura do 51º Festival Internacional do Filme de Cannes comemorou meio século deste documento que, embora tantas vezes desrespeitado, vem cumprindo papel vital para assegurar as liberdades e os direitos individuais. As honras da abertura ficaram mesmo por conta do secretário-geral da ONU, convidado do delegado-geral do festival, Gilles Jacob, apesar das presenças de John Travolta e Isabelle Huppert, a quem coube a missão de inaugurar a mostra. E como se o símbolo não fosse suficiente, o secretário precedente, Javier Perez de Cuellar, também compareceu.
Justa e adequada a homenagem. Afinal, nada tão conveniente e apropriado para se falar em direitos humanos do que a mais internacional, crítica, reverenciada e ressonante tribuna de idéias - o Festival de Cannes, para onde convergem anualmente irrequietas obras de criadores de todas a nações. Não por acaso o presidente do festival, Pierre Viot, vai escrever a palavra Liberté em frente ao Palácio dos Festivais, no domingo, 24, último dia da mostra.
Hors-concours, o filme de abertura, Primary Colors, num certo sentido tem tudo a ver com direitos humanos. Dirigido por Mike Nichols (Quem tem Medo de Virginia Woolf ?, A Primeira Noite de Um Homem, Lobo), que aos 67 anos e pela primeira vez em sua carreira vem a Cannes, o filme é uma espécie pós-moderníssima de conto imoral. É aquilo que se convencionou chamar de filme a clef, isto é, tudo a ver com determinada situação real, existente. Mera e não mera coincidência - e isto é possível, com certeza, quando se faz cinema num país onde os direitos da cidadania são respeitados rigorosamente por políticos de qualidade moral duvidosa - para dizer o mínimo - como o Jack Stanton vivido por John Travolta ou pelo Bill Clinton interpretado pelo próprio.
Frequentemente engraçado, perturbadoramente evocativo da história recente
e recheado de grandes interpretações, Primary Colors não chega a ser um bom filme, mas fica bem perto. Baseado em livro de 1996 assinado por Anônimo (aliás Joe Klein) sobre os bastidores da primeira campanha presidencial do presidente Bill Clinton, Primary Colors foi trabalhado pela roteirista Elaine May e pelo diretor Nichols como material de ficção, mas apesar de todos os cuidados nesse sentido, é extremamente difícil, quase penoso para o espectador tentar exercitar abstrações. A tendência das platéias é aceitar tudo como verdade, mesmo que se detecte aqui e ali um dose maior ou menor de maquiagem nos fatos. Isto explica por que a trajetória comercial do filme, nos Estados Unidos, tenha sido catastrófica: lançado há dois meses, rendeu até agora 38 milhões de dólares, muito pouco para um custo de 45 milhões. Como todo mundo já sabe, o grande público absolveu Clinton das travessuras sexuais. O ibope do presidente voltou a subir, na mesma medida em que subiram o índice de emprego e da economia americana em geral. Não há, no momento, muito mais interesse de sair de casa para esmiuçar o que já se sabe e se quer ignorar, para o bem da pátria e do capitalismo.
Vindo da dupla Elaine-Nichols, esperava-se um tratamento satírico mais substancial na abordagem do processo político. E na inesgotável capacidade manipuladora do personagem. O que de fato Primary Colors almeja, mas falha parcialmente, é demonstrar a persuasão, o envolvimento, a submissão à esfera de influência pessoal.
Apesar das irretocáveis presenças de John Travolta, Emma Thompson (uma Hilary esplêndida...), Kathy Bates, Adrian Lester, entre outros também muito bons, a acolhida da crítica foi bastante reservada.





