Começa hoje mais um espetacular circo mediático planetário. O 52º Festival International du Film de Cannes será aberto logo mais à noite com a exibição, fora de concurso, do épico russo ‘‘O Barbeiro da Sibéria’’, com Richard Haris e Julia Ormond e assinado por um veterano frequentador do Palais de Festivals, Nikita Mikhalkov. A seleção oficial deste ano destacou 22 longas-metragens para a disputa da Palma de Ouro, 10 curtas-metragens também em competição, 7 filmes hors concours, 18 curtas e médias-metragens agrupados na seção Cinéfondation - filmes realizados em escolas de cinema de todo o mundo - e 22 filmes na paralela Un Certain Regard. Há de quebra outro petisco irrecusável: a tradicional ‘‘Quinzena dos Realizadores’’, não competitiva e organizada de forma independente, este ano com outros 23 títulos de longas-metragens que vão disputar a atenção de cerca de 3.500 jornalistas e críticos. Junte-se a esses números muitas centenas de títulos à solta no Mercado do Filme e se obterá em compactos 12 dias, sem nenhum exagero, a maior maratona de imagens sobre a face da Terra.
Pelo menos no papel, a princípio, a seleção 99 aparece com força e expressão suficientes para não ameaçar o confortável prestígio da mostra. Diretores de notável saber e talento dão respaldo e aval a um processo seletivo que reuniu 1.138 filmes (560 curtas e 578 longas), provenientes de 69 cinematografias. Só para a Cinéfondation foram inscritos e passaram pelo crivo 412 títulos realizados por alunos de cinema de 39 cursos de cinema.
Pesos pesados como Takeshi Kitano, Peter Greenaway, Marco Bellochio, Pedro Almodóvar, o mitológico Manoel de Oliveira, em plena forma aos 91 anos, e David Lynch, entre outros, autorizam uma perspectiva otimista. Um mea culpa, pelo menos momentâneo, assumido este ano pela organização: não será um festival monopolizado pela língua inglesa. Entre os 22 da competição principal, apenas 7 são em inglês - da Inglaterra ou dos Estados Unidos. Não se pode negar uma certa tendência eurocêntrica à seleção - são 11 produções, contra 6 das Américas e 5 do Oriente e Oriente Médio. A propósito, o preciosista Zhang Yimou andou acusando Cannes de criar problemas para seu último filme, ‘‘Nenhum a Menos’’, e se retirou da seleção. Resultado: a China está representada apenas por Chen Kaige, que já levou uma Palma por ‘‘Adeus Minha Concubina’’. Por sua vez, os israelenses comemoram a volta do cinema do país ao Festival, depois de 25 anos. Amos Gitai é o diretor de ‘‘Kadosh’’, uma história de amor que deve polemizar em torno de tradição e repressão. Cotados a princípio, ficaram de fora, por motivos diversos, os filmes de Polanski ( ‘‘O Nono Portão’’) , Anthony Minghella (‘‘O Talentoso Senhor Ripley’’) e István Szabó (‘‘Um Gosto de Alvorada’’).
ReproduçãoCena de ‘‘O Barbeiro da Sibéria’’: filme abre hoje o Festival de CannesComo de hábito entusiasmado, o delegado-geral de Cannes, Gilles Jacob, tem dito que o Festival deste ano oferece ‘‘uma seleção atenta à modernidade’’. Segundo ele, há promessas de ‘‘belas emoções artísticas e humanas’’, e que ‘‘os filmes privilegiam a arte da mise en scSne em todos os seus componentes, e refletem bem a missão do festival: descobrir novidades, confirmar notoriedades, defender os artistas que têm uma concepção exigente do cinema’’.
Além do prêmio máximo - a Palma de Ouro - o júri também concede um grande prêmio, prêmios de interpretação masculina e feminina, melhor direção e melhor roteiro. O prêmio especial do júri é facultativo, mas é raro um festival ficar sem ele. Este ano os jurados para longa-metragem são o cineasta canadense David Cronemberg (presidente), a diretora alemã Doris Dorrie, o cineasta australiano George Miller, o diretor italiano Maurizio Nichetti, o francês André Techiné, o ator Jeff Goldblum, as atrizes Holly Hunter e Dominique Blanc e a cantora lírica Barbara Hendricks.
Frustrante, a participação brasileira este ano. Numa espécie de ressaca pós ‘‘Central do Brasil’’, tivemos recusados pela seleção ‘‘Orfeu’’, de Cacá Diegues, e ‘‘Lavoura Arcaica’’, de Luís Fernando Carvalho. Quem segura a honra latino-americana é Arturo Ripstein, que emplacou na seleção ‘‘Ninguém Escreve ao Coronel’’, baseado em Gabriel Garcia Márquez.
Para nós restou o consolo de encontrar o gentleman Walter Salles nos juris da mostra competitiva de curtas e na Cinéfondation. O Grupo Novo de Cinema e TV tenta vender oito longas no Mercado do Filme. O documentário ‘‘Atlantico Negro’’, de Renato Barbieri, conseguiu vaga em mostra paralela mas não oficial que enfoca o cinema negro.
Algumas homenagens. A Stanley Kubrick, morto recentemente; seu último filme só estréia na Europa em setembro, no Festival de Veneza. A Faye Dunaway, convidada de honra por conta da grande - mas incompleta - retrospectiva ‘‘Les Films d’Amour’’, com 34 títulos cobrindo 5 decadas de romance nas telas, de 1921 a 1967. A Sean Connery, com a exibição de seu filme mais recente, ‘‘Entrapment’’ , de Jon Amiel. E aos franceses Michel Piccoli e Francis Veber.

mockup