Funciona antes como superstição do que como regra fixa, mas tem coincidido sim: em Cannes, as colheitas sabem ser melhores em anos ímpares. No calendário, não no número das edições - esta que vai de 13 a 24 de maio próximo é a 62. Mas a principio a seleção oficial 2009 está boa de fato, com reduzida presença dos EUA e América Latina, forte composição européia e asiática. Em resumo: cardápio refinado para a cinefilia mais exigente.
Ontem saíram as seleções das duas tradicionais e muito prestigiosas mostras paralelas que há décadas acompanham as resenhas principais (competição oficial e Um Certo Olhar, na qual o Brasil emplacou honrosamente ''À Deriva'', de Heitor Dhalia).
E o cinema brasileiro voltou a figurar entre os títulos escolhidos, e com curtas de duas cineastas.
Na Semana da Crítica, quem emplacou dois curtas metragens (''Espalhadas pelo Ar'' e ''Elo'') foi a paulistana Vera Egito, e quem estará na Quinzena é a pernambucana Renata Pinheiro com o curta ''SuperBarroco''. Ainda falta o anúncio dos participantes da CineFondation, na qual concorrem curtas metragens de escolas de cinema. A seção é frequentada com assiduidade pelo Brasil.
A vitrine internacional destas manifestações não é tão ampla como na disputa pela Palma de Ouro, mas para a mídia européia e para o ambiente cult mundial participar da 41 Quinzena dos Realizadores - o último Francis Ford Coppola, ''Tetro'', faz a abertura oficial - ou da 48 Semana da Crítica, é um feito curricular e tanto, um precioso reconhecimento e uma funcional e estratégica abertura para um segmento específico do mercado mundial.
Excluída a animação em 3D ''Up'', filme hollywoodiano que este ano abre Cannes festivamente e fora de competição, a curadoria reforçou a tendência dos últimos anos de (re) valorizar o cinema de autor, aquele bem distanciado de concessões comerciais. Nomes consagrados por Palmas de Ouro e/ou queridinhos cativos no certame (Alain Resnais, Almodóvar, Tarantino, Jane Campion, Tsai Ming-Liang, Ken Loach, Lars von Trier) voltam a brilhar sem a sombra dos excessos made in USA dos últimos anos.
Eles vão se revezar na disputa com autores também ilustres como Ang Lee - ausente da Croisette desde 1997 mas neste meio tempo recolhendo dois Leões de Ouro em Veneza. Fato raro, mas admirável, três mulheres entre os 20 concorrentes: além da australiana Jane Campion, a catalã Isabel Coixet e a inglesa André Arnold estão na corrida pelo prêmio máximo.
Na venerada paralela Um Certo Olhar, a garimpagem geralmente coloca nos olhos da crítica em Cannes gemas de alto valor. E ainda há sempre o que ver com muito interesse entre os eleitos hors concours, as chamadas sessões especiais - como o derradeiro trabalho (incompleto) de Heath Ledger dirigido por Terry Gilliam - ''The Imaginarium of Doctor Parnassus''.

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