Brasília, 28 (AE) - "A Terceira Morte de Joaquim Bolívar", um dos longas estimulantes deste festival, começou com um roteiro para curta-metragem, "recusado pela Embrafilme em 1987", recorda o diretor Flávio Cândido. Com os anos, o trabalho com o texto foi-se depurando e ampliando. O cineasta descobriu que tinha muita coisa para dizer e resolveu cobrir um período mais amplo, abarcando três momentos históricos que considera pontos-chave para a compreensão do País: as vésperas do golpe de 1964, a anistia, em 1979, e os dias atuais, com o triunfo do modelo neoliberal.
"O primeiro momento é o do sonho", explica o diretor. Nessa fase, a esquerda achava que poderia fazer a revolução social no País, mas acabou sendo surpreendida pelo movimento militar. No segundo, quinze anos depois, a anistia, a necessidade da abertura, a "mão estendida do presidente João Figueiredo". Marca um sentimento de perplexidade da esquerda, e de divisões internas entre aqueles que gostariam de continuar o confronto com o poder e os que entendiam que chegara a hora de uma conciliação.
"Gláuber Rocha era um desses, e por isso foi tão patrulhado na época", diz Cândido. Nesse sentido, a segunda parte do filme muda estilisticamente, torna-se mais desconstruída, fragmentada, representando o sentimento da época. O personagem Gláuber Rocha (vivido por Sérgio Santeiro) tem essa função - a de mostrar o dilaceramento da oposição, e termina morto por um tiro, reforçando a tese de "assassinato cultural" levantada na época de sua morte, em 1982.
Já a terceira parte do filme é descrita pelo diretor como aquela em que certa esquerda chega ao poder. "Mas uma esquerda que, para isso, se alia à pior direita, e por isso se perde". O travo amargo deixado pelo final do longa-metragem é proposital. "Quis evocar as oportunidades perdidas do País", diz. Nesse sentido, a terceira morte de Joaquim Bolívar é a menos épica, a mais triste e definitiva. "Não sei se a história acabou, como se diz, mas pelo menos para aquele personagem terminou mesmo". Enquanto espera pelo resultado do festival, Cândido já vai pensando em seu próximo projeto de longa-metragem
"O Revisionista" e o "Fora-da-Lei".

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