Canções na noite do Brasil
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 02 de outubro de 1998
Zeca Corrêa Leite 
A ditadura militar instaurada no Brasil a partir de 1964 encontrou forte resistência na inteligência nacional. Uma das alas onde o confronto tornou-se mais ostensivo foi a da música, tendo em Chico Buarque seu maior símbolo. Uma tese de mestrado defendida há poucos dias na Universidade Federal do Paraná pelo professor de História Semi Cavalcante de Oliveira abordou esse momento do País. O foco, porém, foi para a dupla João Bosco e Aldir Blanc, surgida em 1972.
O título do trabalho foi retirado de um verso de O Bêbado e a Equilibrista, talvez a mais popular de todas as canções assinadas por Bosco e Blanc: Irreverências Mil pra Noite do Brasil: Imagens do Regime Militar nas Canções Engajadas. A banca examinadora deu nota máxima para Oliveira.
Alguns fatores pesaram na escolha dos dois compositores, entre eles o fato da dupla, apesar de sua importância, jamais ter sido estudada. Embora Bosco/Blanc tenham ascendido na carreira artística em 1972, quando a canção de protesto já contava com alguns anos de existência, vale lembrar que estava em vigor a era Médici, a mais turva do período militar. Os dois juntaram-se às vozes discordantes, mas enquanto a maioria dos compositores cantava o espaço público, batendo direto com a censura, estes ocupavam-se do espaço privado.
Ou seja, traziam à tona os excluídos, os deserdados, personagens que viviam à margem e que eram frutos diretos do sistema. Com uma imprensa amordaçada, impedida de falar da miséria que se ampliava, à medida que a concentração de rendas tornava-se cada vez mais vil, esta era a saída. A denúncia e a crítica chegavam veladas, driblando os censores, num dos desafios da época.
Segundo o professor, o mérito dos artistas, tomando-se um contexto mais amplo, foi o de impedir o silêncio geral, ambicionado pelos generais. Se conseguissem este silêncio, não teriam a palavra política em circulação. A tese universitária objetivou justamente isso, mostrar o uso das metáforas na rede nervosa dos discursos musicais.
Não só a música, a cultura como um todo impediu esse silêncio, comenta Oliveira. Mas foi a música a mais significativa, porque tinha maior poder de penetração. Apesar da censura, entrava na casa das pessoas. Era uma rede de recados informal, que unia os segmentos politizados, segundo sua análise.
A propaganda do governo alardeava a condição do País como a 8ª economia do mundo, obras faraônicas eram construídas e batia-se no peito com ufanismo. Como estragar essa festa? Retrucando no escuro, no subtexto dos versos. Não precisava todo mundo entender suas mensagens, poderia ser um mínimo. Importante é que fosse levada adiante, continua.
João Bosco e Aldir Blanc falam da questão sócio-econômicaem sua obra. O subemprego, o desemprego, o êxodo rural são temas que eles usaram em sua obra. Rancho da Goiabada pela primeira vez colocou na MPB a figura do bóia-fria desorientado na cidade grande, dançando numa escola de samba, depois de ter dançado na vida.
Mestre Sala dos Mares continua sendo a única música a citar o marinheiro João Cândido, que em 1910 chefiou a Revolta da Chibata, contra os maus-tratos da Marinha de Guerra brasileira. O Bêbado e a Equilibrista, transformada em hino da anistia, abre o leque: toca em assuntos delicados na época, como a tortura, o exílio e o rabo de foguete que tudo aquilo representava. Coloca até Clarice Herzog em cena, viúva do jornalista Wladimir Herzog, morto nos porões da polícia política.
Ronco da Cuíca é explícita - a letra diz que os homens (militares) não querem ouvir o ronco da cuíca, nem o da fome. Lançada em disco, cantada em shows era esta uma clara irreverência ao mando do poder. A música caiu como uma luva num episódio ocorrido em Curitiba.
Quando Brasília mandou lacrar os transmissores da Rádio Iguaçu, que fez história nos anos 70 em Curitiba, os inconformados programadores da emissora colocaram no ar, desde o início da manhã, todas as músicas de protesto disponíveis. Foi dessa forma que esperaram pelos funcionários do Dentel. Com um detalhe: Ronco da Cuíca foi a mais executada nesse dia, conta Semi Cavalcante de Oliveira.
Irreverências Mil pra Noite do Brasil, aborda o cancioneiro nacional de 1968 a 1979, quando começa a abertura política. Fazendo um balanço desse período, Oliveira afirma que a canção engajada venceu essa batalha. Apesar de toda a censura, ela mantém a palavra em circulação e não permite que o silêncio paire sobre o Brasil. Ou seja, ela consegue manter a luz acesa na longa noite do Brasil. Uma noite de 25 anos, finaliza.


