Para os músicos de barzinho, interpretar canções conhecidíssimas faz parte do ofício. Eles reclamam, no entanto, da falta de renovação do repertório dos fãs
Na opinião do londrinense Marcelo Camargo, a questão da popularidade de certas músicas não envolve exatamente a sua qualidade e sim o problema da repetição. ‘‘Se coloco em meu repertório, é porque considero que elas têm seu valor. Só que tocar a mesma música várias vezes incomoda’’, alega.
Ele afirma que as pessoas não querem conhecer coisas novas no barzinho. Querem a reprodução do que ouvem na mídia. ‘‘Elas poderiam começar a ver o músico como mídia, porque a gente também pode estar divulgando coisas novas’’. Eduardo Brancalion também reclama que esse ‘‘fascínio’’ por músicas manjadas tira de jogo muito repertório novo que poderia ser apresentado. ‘‘E isso às vezes é problema. Já chegaram, por exemplo, a pedir para tocar ‘Sozinho’ umas 25 vezes numa única noite!’’. Ele procura não repetir as músicas e, quando isso é inevitável, tenta acumular pedidos iguais. ‘‘É uma questão de respeito com quem assiste ao show inteiro’’, argumenta.
Apesar de tudo, Cristina Tonin e Eduardo Brancalion acham fundamental o feedback do público. Isso vale para bilhetinhos, cantar junto, bater palmas. ‘‘As pessoas às vezes têm vergonha e isso faz falta. Não precisa extrapolar. Basta estar envolvido com o show’’, diz Cristina.
A cantora Márcia Santos, que também toca violão há 25 anos, é mais contundente em sua opinião: ‘‘O povo gosta de coisa fácil. Tenho certeza. Acho que eles descobrem a ‘novidade’, a letra fácil e pronto. Não vão pela qualidade. Vão por coqueluche’’. A irmã de Márcia, Marta, que fez parte do movimento da Jovem Guarda e nos últimos 18 anos vem cantando na noite londrinense, acha que nos anos 60, 70, as pessoas gostavam de música a ponto de pesquisar sobre a letra e o intérprete. ‘‘Hoje não querem mais saber. Querem o que está tocando e é fácil de ouvir’’.
Apreciadoras dos clássicos mais antigos, Marta e Márcia acreditam que, com músicas como ‘‘Ronda’’, a coisa é diferente. ‘‘Este é um marco na boemia. Nada a ver com Vida Cigana ou Espanhola, músicas de 1980 pra cᒒ. Para elas, essas canções mais recentes marcaram uma época e são lembradas até hoje porque ‘‘os seguidores tocam as mesmas coisas que aprenderam com outros músicos de outros barzinhos’’. ‘‘Uma época, Londrina tinha uns 10 bares de MPB e essas músicas eram preferidas dos músicos. Era uma época forte’’, diz Marta.
Márcia Santos, que toda noite recebe pedidos para tocar ‘‘Andança’’, ‘‘Tarde em Itapo㒒 e ‘‘Espanhola’’, acha que o público quer é participar. Para ela, cantar junto faz parte do ambiente. ‘‘Essa é a música ao vivo de barzinho. Diferente de um show’’, completa Marta.
O bom e velho ‘‘jeitinho’’ é um aliado dos músicos. Marta Santos confessa que não atende qualquer pedido. ‘‘Mas eles vão ao bar para ouvir o músico e ver gente. Eles pedem e eu canto. E para não contrariar, vou levando, canto outra mais ou menos no mesmo embalo...’’, revela.
Márcia, ao contrário, afirma que canta qualquer pedido. ‘‘Com o povo não se discute. Como sou profissional, cada dia canto com uma banda ou um cantor diferente. Se não tocar o que eles querem passo fome’’. Ela assume que, por curiosidade, pergunta para a rapaziada de onde conhecem os clássicos: ‘‘Ah, meu pai ouve, minha mãe gosta... E tem muitos que acham legal, acham chique pedir músicas de Gil, Caetano. E isso é aqui, em Curitiba, em São Paulo. Tudo a mesma coisa’’.
Mas o que é que essas músicas têm que não perdem terreno? Opiniões, têm várias. Marcelo Camargo acredita que certas canções caíram no gosto do público. ‘‘E não foi por acaso. Tem a estrutura, a letra, a melodia, algum elemento pra isso. Quando foram lançadas, passaram a fazer parte das preferências. O público do bar não se recicla de uma hora para outra. Isso é gradativo’’, opina o cantor. ‘‘O mais jovem que começa a frequentar a noite convive com uma geração anterior, que também já conviveu com outra geração... Isso é o que identifica a música de barzinho. Faz parte do clima’’.
Os clássicos desse repertório ainda fazem tanto sucesso que tem mais gente embarcando na brincadeira. O músico Renato Vargas, do Rio de Janeiro, gravou um disco chamado ‘‘O Som do Barzinho’’, com esse mesmo tipo de música, ao vivo, em um bar. O projeto deu tão certo que já foi lançado o terceiro volume do CD. Novas canções estão entrando para a lista dos clássicos. Marisa Monte e Djavan são fortes candidatos. ‘‘Bem Que se Quis’’ (Pino Daniele, versão Nelson Motta) e ‘‘Se’’ (Djavan) já estão entre as mais manjadas.

mockup