Para apresentar a solidão de um homem, basta colocá-lo no cume de uma montanha remota, no meio de uma floresta erma, dentro de uma pequena choupana camuflada. Completamente sozinho, isolado do mundo. Complemente solitário, longe de tudo, distante de todos.
  Tudo ilusão. Existe uma diferença considerável entre colocar um homem dentro da solidão e colocar a solidão dentro de um homem. Para apresentar de maneira mais abrangente a solidão de um homem, basta colocá-lo cercado de outros homens. Dentro de uma casa habitada por várias pessoas, no meio de um bairro, dentro de uma cidade, no interior de múltiplas relações humanas.
  Essa é uma das principais características da literatura da escritora norte-americana Carson McCullers (1917 - 1967). Com uma profunda capacidade de focalizar a solidão presente no interior de homens e mulheres, pessoas imersas nas redes familiares e sociais mais cotidianas, sua escrita revela tudo aquilo que permanece oculto no território da solidão.
  ‘‘O Coração é um Caçador Solitário’’, primeiro romance escrito por Carson McCullers, acaba de ser lançado pela Editora Companhia das Letras. Considerado sua melhor obra ao lado do volume de contos ‘‘A Balada do Café Triste’’ (Editora Globo, 1993), o livro é um passeio tortuoso pela vida de pessoas que não se encaixam nos papéis pré-moldados da sociedade.
  ‘‘O Coração é um Caçador Solitário’’ narra a história de cinco personagens que se cruzam no final da década de 30, numa pequena cidade do sul dos Estados Unidos. Briff é o dono do único restaurante que não tem hora para fechar. Jake é um marxista que vaga de cidade em cidade tentando incitar os operários à revolução comunista. Benedict é um médico que procura convencer pacientes pobres a lutar pelos direitos dos negros. Mick é uma garota que precisa abandonar a infância e entrar no mundo adulto na porrada. John é um surdo-mudo enigmático capaz de ouvir o desabafo de qualquer pessoa.
  Num momento inicial, o ponto de união dos cinco está no bar de Briff, onde alguns comem e outros bebem. Num momento posterior, o ponto de união passa ser a figura de John, o surdo-mudo que todos passam a procurar para expor seus desejos, relatar suas idéias, partilhar seus problemas. Graças à sua paciência e seu sóbrio silêncio, John catalisa a solidão de todos.
  Preso em suas vidas solitárias, cada um procura a maneira mais nebulosa para atingir o que esperam da vida. Não esperam grandes coisas, apenas aquilo que dê algum sentido num mundo que não foi criado para eles. Sempre do lado de fora, não esperam fazer parte do mundo, mas ocupá-lo da maneira que entendem que devem ocupá-lo.
  Carson McCullers coloca no papel de agente de aglutinação justamente um personagem com dificuldade de comunicação. John assume o papel de ouvinte ideal. Um sujeito que acolhe as palavras de todos com total disposição mas, por outro lado, não possui ninguém capaz de acolher suas silenciosas palavras. Quando finalmente consegue dizer alguma coisa, não há ninguém capaz de entender seu clamor.
  Carson McCullers nasceu Lula Carson Smith em 1917. Sua grande paixão era a música, seu sonho era ganhar a vida como pianista e compositora. Na juventude se mudou para Nova York na tentativa de apostar tudo na carreira musical. Abatida pelas dificuldades, decidiu se aventurar pela literatura. Publicou seu primeiro romance, ‘‘O Coração é um Caçador Solitário’’ em 1940, com apenas 23 anos de idade. Concorrendo como figuras como William Faukner, Ernest Hemingway e Tennesse Willians, sua obra permaneceu num plano secundário até começar a ser adaptada para o cinema.
  A vida de McCullers não foi nenhum mar de rosas. Sofreu uma extensa lista de problemas de saúde – febre reumática, ataques cardíacos, pneumonias, câncer, paralisia e outras coisas. Na última década de existência, viveu com todo o lado esquerdo do corpo paralisado. Para criar seus últimos textos, conseguia utilizar apenas um dos dedos para datilografar.
  Cada capítulo de ‘‘O Coração é um Caçador Solitário’’, mesmo conservando a narrativa em terceira pessoa, é apresentado a partir do ponto dos cinco personagens principais. Com esta estrutura, McCullers coloca nas mãos do leitor as particularidades da solidão de cada um através de um jogo de sutilezas. Apesar do tom pungente, a escritora insere algumas doses de ternura em sua narrativa, algo que propicia a humanização da própria crueldade do real.
  Ao inserir estas doses de ternura ao focalizar alcoólatras, loucos, deficientes físicos, homossexuais, alienados, viciados e miseráveis, Carson McCullers cria uma dimensão literária abrangente em subjetividade. Invariavelmente, a grande maioria das personagens de suas histórias vive estabelecendo relações amorosas conflituosas com pessoas, coisas ou situações. Um tipo de amor que tem sua origem justamente no lugar onde a solidão instaura o germe da revolta. Um tipo de amor que não surge para preencher o vazio da solidão, mas para revelar seu sentido. Algo como as canções entoadas em silêncio.

Fragmento de ‘‘O Coração é um Caçador Solitário’’, de Carson McCullers
  Chegou ao limite da cidade e dobrou numa rodovia. Carros passavam, deixando-o para trás. Seus ombros eram largos demais e seus braços, compridos demais. Ele era tão forte e feio que ninguém queria lhe dar carona. Mas talvez algum caminhão parasse para ele não demorava muito. O sol do fim da tarde estava descoberto de novo. O calor fazia o vapor subir da calça molhada. Jake andava num ritmo constante. Assim que a cidade ficou para trás, um novo ímpeto de energia surgiu dentro dele. Mas aquilo era fuga ou investida? Fosse o que fosse, ele estava indo. Tudo isso para começar mais uma vez. A estrada à sua frente seguia para o norte e ligeiramente para o oeste. Mas ele não pretendia ir muito longe. Não ia sair do sul. Essa certeza pelo menos ele tinha. Havia esperança dentro dele e talvez em breve o itinerário da sua viagem começasse a tomar forma.

SERVIÇO
- ‘‘O Coração é um Caçador Solitário’’, de Carson McCullers. Editora Companhia das Letras, tradução de Sonia Moreira, 456 páginas, R$ 57,00.
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