São Paulo, 10 (AE) - A cidade é o cenário da peça "Canção do Cisne", um espetáculo-solo simples e profundamente tocante, inspirado na peça curta de Chekhov "Canto do Cisne", que estréia amanhã (11). Sob a direção do russo Vadim Nikitin, que vive no Brasil desde 1976, o ator Gustavo Machado interpreta um bêbado que chega tarde demais a uma estréia teatral e dá de cara com a porta do teatro trancada. No original de Chekhov, um velho ator dorme em seu camarim, após ter bebido um pouco além da conta e, ao acordar, percebe que foi esquecido no teatro. Trancado, no palco vazio, ele relembra sua carreira e reflete sobre o fato de ter dedicado a vida ao teatro sem nunca ter feito os grandes papéis desejados.
Surge então um inesperado espectador, um funcionário que dormia clandestinamente no teatro e, para ele, o velho ator representa trechos de grandes papéis. O cisne do título tem forte simbolismo, pois se trata de uma ave que só canta pouco antes de morrer. "O diálogo entre eles se revela um dos mais belos laços entre a luz do mundo teatral e a treva da condição humana", comentou o diretor russo Constantin Stanislavski.
Em "Canção do Cisne", espectadores e ator ficam do lado de fora do teatro. Na porta do Cacilda Becker, um jovem chega dizendo ter marcado com os amigos num bar para irem juntos ao teatro, porém bebeu demais e chegou tarde. "Apesar dessa inversão, o tema da vida que podia ter sido e não foi, como diria Manuel Bandeira, continua presente", afirma Nikitin.
"O personagem tem uma ambiguidade, pode ser um ator do teatro, é o que ele diz, mas pode ser também um mendigo, um bêbado de rua", lembra Machado. "A porta do teatro transforma-se aos poucos na porta da vida", conta Nikitin. O tom da conversa entre personagem e público é coloquial, porém nada tem de banal. "O personagem vive um daqueles momentos em que se resolve falar tudo".
O autor define a recriação da peça como paródia lírica. "Há referências sutis a outras peças do Chekhov". Mas o essencial nessa criação é a relação direta do ator com seu público. "O grande barato do texto de Nikitin é que não há arroubos poéticos, é um texto aparentemente corriqueiro, uma conversa de botequim", ressalta Machado. Por isso mesmo, o ator compara a criação de Nikitin, em sua mistura de beleza e verdade
à poesia da nossa melhor música popular brasileira.
Segundo o diretor, o espetáculo radicaliza a linguagem teatral. "Já se tornou um clichê dizer que o teatro é a única arte que conta com a presença viva do ator, mas nesse espetáculo a relação ator e público é realmente a essência da encenação".

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