São Paulo, 16 (AE) - É o momento possivelmente mais emocionante de "Terra dos Índios": dona Maria Rosa, única sobrevivente de uma tribo (ofaiêxavante) encontrada por Rodon em 1910, conta diante de um gravador a história do seu povo, falando na sua língua. Quando ela ouve a própria voz, parece enlouquecer. Começa a perguntar pelo pai, pela mãe, pelos amigos. Há anos não ouvia ninguém falar a língua de sua tribo.
"Terra dos Índios" é um dos filmes que integram a programação de segunda-feira no Canal Brasil (66 da Net), comemorativa do Dia do Índio. Serão exibidos: "República Guarani" e "Yndio do Brasil", de Sylvio Back, às 9 h e 15 h, "Terra dos Índios", de Zelito Viana, às 12 h, "Avaeté, a Semente da Vingança", também de Viana, às 18 h, "Índia, a Filha do Sol", de Fábio Barreto, às 21 h, e "Capitalismo Selvagem", de André Klotzel, às 23 h.
Embora desiguais, são todos integrados no mesmo movimento: a defesa do índio. "Terra dos Índios" é dedicado à memória do indianista Noel Nutels. Era parte de um projeto maior
elaborado por Viana e Leon Hirszman, que queriam recontar a história do Brasil do ângulo dos dominados. Da terra dos índios aos índios sem terra - é a perspectiva do documentário de Viana, que dá voz aos oprimidos. Viana também dirige "Avaeté". O melhor deste filme são o início e o fim, o prólogo e o epílogo, banhados de sangue.
No prólogo, o cineasta registra o massacre de uma tribo de índios, plantando no coração de Avá, o único sobrevivente, a semente da vingança que explodirá no desfecho. São momentos fortes que, pelo menos numa cena - uma índia rachada ao meio com um facão -, podem ferir suscetibilidades, mas nunca a ponto de serem considerados gratuitos ou despropositados. Viana colocou-se integralmente ao lado dos índios. Deu-lhes sua solidariedade. Como bons filmes nem sempre nascem de boas causas
o miolo de "Avaeté" deixa um tanto a desejar. Mais à vontade na emoção espontânea do documentário, Viana tem dificuldade para dar força à sua ficção.
São documentários os dois filmes de Sylvio Back. "República dos Guaranis" discute as reduções jesuíticas no Sul do Brasil, no século 16. "Yndio do Brasil" rastreia imagens documentadas de índios ao longo do século para concluir que índio bom é índio filmado. Como sempre no cinema de Back, ambos retiram o verniz ideológico das verdades estabelecidas para expor o que se esconde por trás das fachadas oficiais.
"Índia, Filha do Sol" assinalou a estréia de Fábio Barreto. Como em "O Quatrilho", a produção é impecável, mas falta força à realização. A história de amor da índia e do soldado parece pretexto para muitas imagens de cartão postal, como se a fotografia fosse mais importante do que a indignação do discurso pelos estigmatizados pela sociedade. "Capitalismo Selvagem" mostra um descendente de índios que explora as riquezas de sua gente, mas falhas de direção e roteiro comprometem a seriedade do projeto.

mockup