Canal Brasil homenageia Procópio Ferreira com documentário
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quarta-feira, 16 de junho de 1999
Por Júlio Gama 
São Paulo, 17 (AE) - Completam-se amanhã (18) 20 anos desde aquela tarde de segunda-feira em que Procópio Ferreira não resistiu aos 21 dias de internação no CTI do Hospital das Clínicas do IV Centenário, no Rio, e morreu, vítima de enfisema pulmonar. Para marcar a data em que o País perdeu o seu maior ator, às vésperas de fazer 81 anos, o canal Brasil (Net/SKY) exibe amanhã, às 18 horas, na faixa "Retratos Brasileiros", o documentário "Vida e Obra de Procópio Ferreira".
O documentário abre a homenagem que o Canal Brasil faz ao ator, exibindo cinco dos principais filmes dos quais participou. O primeiro, "O Homem dos Papagaios", vai ao ar amanhã, logo após o documentário, às 18h30. Em seguida estão programados: "Quem Matou Anabela?", dia 25, às 18 horas; "Titio não É Sopa", dia 2, às 18 horas; "Crônica da Cidade Amada", dia 9, às 18 horas e "Em Família", dia 16, às 18 horas.
Apresentado pelo ator Tadeu Aguiar, "Vida e Obra de Procópio Ferreira", traz, entre outros, depoimentos de uma das filhas de Procópio, a atriz e diretora Bibi Ferreira, da atriz e ex-mulher Norma Geraldy e do dramaturgo Dias Gomes, morto há poucas semana . Procópio nasceu em julho de 1898 e não era propriamente o que se chamaria de uma criança bonita. Ele mesmo, certa vez, escreveu a cena de seu nascimento, imaginando um diálogo familiar: "Nasci numa sexta-feira", inicia. "Oh! que bonito petiz", exclama o pai aflito e logo vem a parteira: "Ora, deixemos de brincadeira, chamar isso de bonito, assim, com esse nariz?", pergunta. "Há de ser cirurgião e formado em Paris", afirma um outro parente, prossegue em sua imaginação. "Isso não, cem vezes não", solta feroz, meu irmão: "De certo mata um doente assim, com esse nariz". O texto acima abre o documentário.
Procópio, porém, tinha a medida certa do que proporcionava ao público que lotava os teatros para vê-lo em cena. Num depoimento emocionado, Bibi Ferreira lembra do dia em que flagrou o pai se mirando no espelho de um camarim e enumerando o que seria um amontoado de defeitos, do nariz grande aos braços demasiadamente compridos até a baixa estatura (1,68 m). Bibi tentou dizer-lhe que não era bem assim e ouviu: "Não, não, sei exatamente o que sou, mas sei também exatamente o que dou".
No documentário há cenas de espetáculos e de ensaios, fotografias de época e recortes de jornais. São impressionantes as imagens do ator exercitando-se e mostrando as várias entonações que dá para a mesma frase. "Ninguém fala com pontuação gramatical, mas com a pontuação da vida e essa era a grande inflexão de papai; era o seu forte", ressalta Bibi. Procópio nasceu para ser advogado, segundo o raciocínio dos pais
que não compreenderam quando descobriram que o filho estava estudando teatro. Foi expulso de casa, aos 18 anos, com a roupa do corpo. "Trabalhou como moço de recado, almoçou e jantou muita média com pão e manteiga, mas formou-se ator", conta Tadeu Aguiar.
Daquele momento até sua morte, em 1979, o ator teria completado 62 anos de teatro e cinema, tempo em que encenou 422 peças no Brasil e na Europa. A primeira foi "Amigo, Mulher e Marido", em 3 de março de 1917. Seu maior sucesso foi "Deus Lhe Pague" (que Bibi remontou e está em cartaz em São Paulo), escrita por Joracy Camargo e montada pela primeira vez em 1932, no Teatro Serrador, na Cinelândia, no Rio. O espetáculo registra a incrível marca de 3.621 montagens em 30 anos no Brasil e na Europa.
Mais do que refrescar a memória dos mais velhos, o documentário tem o mérito de apresentar Procópio Ferreira aos mais jovens. Mas 30 minutos é tempo curto demais para dimensionar a importância do ator.


