São paulo, 29 (AE) - Ícone do cinema brasileiro dos anos 50, rainha da chanchada, Eliana canta e dança em "Rio Fantasia". Íris Bruzzi, numa das grandes interpretações femininas da história do cinema no Brasil, arma o maior barraco ao lavar o carro na rua num dos episódios de "As Cariocas". E Cacá Diegues, naquele que permanece como um de seus filmes mais bonitos, enfoca o drama dos migrantes em "A Grande Cidade".
Três flagrantes do Rio, três filmes, de gêneros e estilos diversos, que usam o cenário da cidade chamada de maravilhosa para colocar na tela imagens do País. O Rio de Janeiro nunca deixou de ser lindo. A cidade que Monteiro Lobato chamou de "grande almoxarifado das belezas naturais do Brasil" deixou de ser a Capital Federal sem perder a majestade. Sofreu com a violência do narcotráfico, a degradação urbana, as más administrações, mas continua maravilhosa.
Os 435 anos do Rio ganham nesta quarta-feira a homenagem do "Canal Brasil" (Net/Sky), que programou um dia inteiro de filmes que privilegiam a paisagem carioca como cenário da ação. São obras dos anos 50 aos 90. Os diretores são desde chanchadeiros a cinenovistas ilustres. Como se não bastassem os filmes, haverá, de manhã e no fim da tarde, o especial "Cinema no Rio", uma seleção de curtas às 20h30 e às 14 horas e 23 horas, os melhores clipes de artistas cariocas como Chico Buarque, Zeca Pagodinho, Marisa Monte, Cidade Negra e muitos outros.
Historicamente, sempre se considerou que o Rio, localizado entre o mar e a montanha, foi o berço do cinema no País. Afonso Segreto teria rodado, ainda no século passado, na Baía de Guanabara, as primeiras imagens cinematográficas registradas no País, quando o cinematógrafo dos Irmãos Lumire ainda engatinhava em todo o mundo. Essa idéia é contestada pelo professor João Luiz Vieira. O especial dirigido por Marcus Vinicius Cezar reabre a discussão e ainda traça um amplo panorama do cinema no Rio, desde os primeiros registros até as produções mais recentes, filmes como "Quero Ser Solteiro", de Rosane Svartman. Música e sexo - Entre outros entrevistados do programa, Walter Lima Jr. diz que a cidade é extremamente cinematográfica. Cacá Diegues ressalta que, no Rio, há uma sensualidade na vida que é muito rara no restante do mundo. São depoimentos que ficam mais verdadeiros com as imagens, cenas de filmes, escolhidas para ilustrar o que os entrevistados dizem. Durante décadas, a então Capital Federal atraiu para si muito do que o País tinha de melhor. Artistas, políticos, homens de cultura, de idéias e de talento. O Rio também sempre serviu como uma espécie de árbitro para o que deveriam ser a moda, o gosto e as tendências no Brasil. Não perdeu esse status porque a Globo, que lá tem a sua sede, continua vendendo o estilo carioca de ser. Houve um tempo, nos anos 80 e início dos 90, que o Rio parecia agonizar, vivendo o mais cruel pesadelo de sua história. Em 1980, a Baixada Fluminense, cinturão miserável da cidade, chegou a ser reconhecida pela ONU como a região mais violenta do mundo. Sequestros, violências, poluição, empobrecimento - pobre.
Ao longo dos últimos anos, a imagem foi sendo reconstruída, senão na íntegra, pelo menos de forma a que, com a chegada do carnaval, volte o fascínio da velha marchinha, aquela que diz que a Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil, é "o coração do meu Brasil". Programação - A programação começa às 7 horas com "Meus Amores no Rio", que o argentino Carlos Hugo Christensen rodou com Susana Freyre no papel da garota portenha que descobre as delícias da vida carioca. Às 10 horas, é a vez de "Rio, Verão e Amor", um dos dois filmes de Watson Macedo que integram a série. Watson foi um dos mestres da chanchada carnavalesca. Reinava na Atlântida, mesmo quando não fazia filmes essencialmente carnavalescos.
"Rio, Verão e Amor" mistura iê-iê-iê e bossa nova. Meio-dia, outro filme de Macedo - "Rio Fantasia", com sua sobrinha Eliana. É a história de um quarteto de músicos nordestinos que tenta a sorte no Rio. Embora musical, pertence à série dos filmes não carnavalescos do diretor. Às 15 horas, André de Biase, Ricardo Graça Melo, Cláudia Ohana e Cláudia Magno montam na prancha e surfam (eles, pelo menos) em "Menino do Rio", de Antônio Calmon.
Às 17 horas, os três episódios de "As Cariocas", sendo dois imperdíveis - um de Walter Hugo Khouri, o mais paulista dos cineastas, traçando o delicado retrato da solidão de uma garota do Rio interpretada por Jacqueline Myrna; outro, tão admirável quanto (e talvez até mais), de Roberto Santos, com a extraordinária interpretação de Íris Bruzzi. A vedete que marcou época nos anos 50 mostra que possuía um imenso talento.
Nove da noite é a vez de "Como Ser Solteiro". O filme de Rosane Svartman chamava-se inicialmente "Como Ser Solteiro no Rio". Perdeu a localização geográfica no título, mas não o carioquismo. Uma história da bossa da conquista segundo os cariocas. A história de um jornalista tímido e seu amigo conquistador, que enriquece com um livro sugestivamente intitulado "Manual do Solteiro". O filme, simpático, divertido
deu origem a uma série no próprio "Canal Brasil".
Meia-noite Paulo César Saraceni mostra a sua versão de "Natal da Portela". O filme sobre o célebre carnavalesco nasceu do desejo que o diretor tinha de dizer que a raça negra é genial. Saraceni é o diretor de "O Viajante". Afinado com o universo do escritor Lúcio Cardoso, o carioca do Estácio Saraceni sempre foi atraído pela figura do lendário Natal, o homem de um braço só, herdeiro da malandragem e das tradições da boemia do Rio. À sua figura, ele contrapõe a de Paulo da Portela
o músico, compositor e poeta, além de militante comunista, que levou o ritmo para a escola.
Se Saraceni quer discutir a cultura popular, Neville DAlmeida quer retratar todos os excessos do Rio. "Rio Babilônia", que passa de madrugada, às 2 horas, nasceu com o objetivo de ser "A Doce Vida", o clássico de Federico Fellini, da Cidade Maravilhosa. No alto do morro do Corcovado, um novo Cristo Redentor de carne-e-osso, simbolizado por um homem e uma mulher nus e de mãos dadas, como Adão e Eva, também abre os braços abençoando o Rio. A partir daí rola a história do relações públicas que é chamado para ciceronear milionário estrangeiro em viagem de negócios ao Rio.
Entre orgias, encontros com traficantes e policiais, DAlmeida traça um amplo painel sobre os contrastes humanos e sociais da cidade. O filme teve problemas com a censura, no começo dos anos 80. Poderia ser interessante, não fosse o gosto de D"Almeida pelo sensacionalismo e pela vulgaridade. Fim da maratona - Quatro horas da manhã. A maratona termina com "A Grande Cidade". Num texto que escreveu para o "Suplemento Literário" do jornal "O Estado de S.Paulo", em 1966, logo após a estréia do filme de Cacá Diegues, Rogério Sganzerla fez uma observação justa, ao dizer que o que mais amava em "A Grande Cidade" eram os pequenos silêncios de sua maravilhosa trilha sonora.
Diegues sempre foi um diretor ligado às raízes da MPB. Ao contar a história da migrante nordestina que vem procurar o noivo no Rio, elaborou uma trilha espetacular. Sganzerla escreveu que não sabia se o filme era uma ópera, uma modinha ou uma toada. Num amplo movimento filmusical, Diegues mistura Villa-Lobos, Heckel Tavares, modinhas imperiais do século passado, Roberto Carlos, Altemar Dutra, Zé Kéti e Nelson Gonçalves.
É um filme para se ver - e ouvir. Entre uma música e outra, um diálogo e outro, um gesto e outro dos atores (Anecy Rocha, Antônio Pitanga e Leonardo Villar), os silêncios fazem-se presente, ganham som, uma tonalidade que assegura toda uma modulação musical.