Câmpus vanguardista
Jackeline Seglin
De Londrina
Personagens e situações importantes da cultura de vanguarda do século 20 são o foco das obras recentemente doadas à Universidade Estadual de Londrina pelo artista plástico Antônio Peticov e pelo arquiteto Guilherme Mendes da Rocha, ambos de São Paulo. Dois grandes painéis estão instalados na entrada do Centro de Ciências Biológicas do câmpus.
Os trabalhos foram criados para a exposição Iconoclastias Culturais, realizada no ano passado, na Casa das Rosas, em São Paulo. Esta mostra reuniu linguagens, alegorias, homenagens e traduções que estiveram na contramão do movimento cultural vigente neste século no Brasil.
Antônio Peticov, artista plástico há 41 anos, criou duas cenas paulistanas em um painel gigante de 14 x 2,2 metros. São cenas falsas na verdade uma montagem impossível trabalhadas com elementos ligados à recente história cultural. O painel traz heróis da cultura de vanguarda como Oswald de Andrade, Flávio de Carvalho, Torquato Netto, José Agrippino de Paula e Joãosinho Trinta, conta.
O artista detalha que esse painel é auto-explicativo. Na cena geral há um pequeno outdoor com uma numeração que identifica os personagens e os elementos do trabalho. A ferramenta utilizada para criar o painel foi o computador. Uma técnica simples, segundo Peticov.
Esta obra foi concebida para ilustrar as paredes externas da exposição paulistana. Agora, Peticov quer conferir o impacto visual nas fachadas da UEL. Estive em Londrina em 1992, para uma exposição no Banestado. Aguardo o convite para voltar, diz.
Quem também está curioso para ver suas obras instaladas na Universidade é o arquiteto Guilherme Mendes da Rocha. Ele criou um painel em preto-e-branco com a série Mulheres, além de duas esculturas em madeira e metal, trabalhos inspirados na obra do historiador, crítico de arte e pintor Flávio Motta, figura de destaque na cultura nacional.
Professor de História da Arte na Universidade de São Paulo, Motta foi conservador do Masp (onde expôs suas pinturas em 1965), publicou vários artigos e ensaios e escreveu os capítulos Visconti e O Início do Século XX para o Dicionário de Artes Plásticas do Brasil (1969).
O convívio com Motta na infância deflagrou em Guilherme uma verdadeira admiração pelo artista. Conheço o Flávio desde criança. Sempre participava das conversas dele com meu pai (o arquiteto Paulo Mendes da Rocha). Esse foi um dos motivos que levaram Guilherme, aos 43 anos, a criar sua primeira obra encomendada para uma exposição. Ele justifica que sua arte é criada informalmente, já que sua profissão é a arquitetura. Faço alguma coisa em casa, já fiz em salas de aula. Mas nada além disso.
O arquiteto criou três peças para compor a exposição. Procurei mostrar com meu trabalho algo que traduzisse Flávio Motta. O painel, em lona plástica vinílica, traz uma série de desenhos de mulheres. Segundo Guilherme, as mulheres de Flávio. Ele tem um caderninho do tamanho de uma caixa de fósforos, no qual faz seus desenhos todo dia. Tudo ele imprime ali, sempre com títulos. E o que eu fiz foi apenas reproduzir e editar alguns deles.
As esculturas são feitas basicamente em madeira e metal. Uma deve ficar no anfiteatro do Cesa, a ser inaugurado até o final do ano. A outra, estamos definindo, diz Marcos Barnabé, professor de Arquitetura e Urbanismo da UEL.
Os contatos necessários para as quatro obras chegarem a Londrina foram feitos por Guilherme Motta, filho de Flávio Motta e ex-professor da UEL, que convidou Marcos Barnabé para conhecer os trabalhos em São Paulo. Para os artistas, a notícia foi bem recebida. Agora o que eles querem é ver tudo de perto.





