Campanha tenta tombar "Di Cavalcanti" feito por Gláuber
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segunda-feira, 20 de setembro de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 21 (AE) - Um impasse pode estar chegando ao fim. Desde 1979, o polêmico curta-metragem "Di Cavalcanti", que o cineasta Gláuber Rocha filmou no velório do pintor carioca
está interditado pela Justiça, a pedido da filha do artista, Elizabeth Di Cavalcanti Veiga. Todas as tentativas jurídicas para liberação de Di-Gláuber, como o filme passou a ser conhecido, foram esgotadas e o assunto parecia encerrado. No entanto, durante a recém-encerrada Jornada de Cinema da Bahia, foi divulgada uma carta endereçada ao presidente Fernando Henrique Cardoso, solicitando que o filme seja tombado, como patrimônio cultural, pelo Iphan.
O documento está assinado pelo reitor da Universidade Federal da Bahia, Heonir Rocha, e atende a uma sugestão do professor da USP Carlos Augusto Calil, ex-presidente da Embrafilme. "Seria a solução possível para que essa obra voltasse à circulação", comenta Calil. "Como bem cultural tombado, Di-Gláuber não poderia ser mais explorado comercialmente, mas, por outro lado, não haveria mais como proibir sua exibição." Segundo Calil, os direitos patrimoniais do filme pertencem à Funarte, que os herdou da Embrafilme quando a empresa foi extinta, e aos sucessores de Gláuber . Qual a base jurídica para a interdição?
"Os herdeiros do pintor seriam detentores dos direitos de imagem de Di Cavalcanti", explica Calil. "Como ele foi filmado, morto, sem o consentimento da família, o filme obtido não poderia servir como fonte de lucro para os realizadores." Essa sentença transitou em julgado e esgotaram-se as instâncias possíveis para recurso. O processo teria de ser reaberto por iniciativa da União. É a interpretação de Calil, que faz questão de ressalvar a sua falta de conhecimento jurídico especializado.
Puro Kafka - Pode-se esperar por um longo e tedioso trâmite jurídico. Valerá a pena se ele conseguir desamarrar esse nó kafkiano, que impede a livre circulação de uma obra de arte. O valor cultural de Di-Gláuber é inquestionável. Recebeu prêmio especial em Cannes, em 1977, de um júri presidido pelo cineasta italiano Roberto Rosselini, papa, guru e mestre do grupo cinemanovista liderado por Gláuber. A distinção coloca esse estranho documentário na posição de um dos poucos filmes brasileiros premiados no mais importante festival do mundo, em companhia de "O Pagador de Promessas", de Anselmo Duarte, que levou a Palma de Ouro, "O Cangaceiro", de Lima Barreto, vencedor da bizarra categoria "filme de aventura", e "Meow", de Marcos Mendes, na modalidade animação.
Di-Gláuber tem apenas 16 minutos de duração. Registra cenas do velório e enterro do pintor Emiliano Di Cavancanti, morto no dia 26 de outubro de 1976. O velório, realizado no Museu de Arte Moderna, foi um acontecimento cultural cujo ápice foi a invasão do recinto pelo diretor Gláuber Rocha e seu câmera
Mário Carneiro. À revelia da família, filmaram durante o velório e continuaram o registro durante o cortejo e o enterro, realizado no cemitério São João Batista.
Gláuber determinou que o câmera fizesse um longo travelling (movimento lateral contínuo) circundando o caixão e terminasse com um close sobre o rosto do pintor morto. Para que a cena ficasse melhor, resolveu retirar um lenço que cobria a face de Di, o que causou protestos da família. O ator Joel Barcellos, convocado por Gláuber, leu o poema "Balada de Di Cavalcanti", escrito por Vinícius de Morais em homenagem ao pintor, de quem era amigo.
O cineasta faz também questão de registrar as pessoas que foram ao MAM e ao São João Batista despedir-se de Di. Uma delas era a deslumbrante Marina Montini, uma das musas do pintor
modelo de muitas de suas telas. Marina foi, nos anos 70, a mulata mais notória do País. É vista, vestida de branco e usando óculos escuros, ao lado do corpo, chorando. Depois é seguida pela câmera no acompanhamento do enterro. O cineasta registra também os momentos em que amigos da família pedem para que interrompa a filmagem. A música incidental inclui de Villa-Lobos (uma das obsessões de Gláuber) à marchinha "O Teu Cabelo Não Nega", dos irmãos Valença e Lamartine Babo. Gláuber transformou o ato fúnebre em carnaval.
Não seguia apenas a um impulso pessoal, mas acreditava estar em sintonia com a visão de mundo do defunto. Várias vezes Di, um espírito anárquico, declarara: "Onde há disciplina, sinto-me mal." Ali estava, portanto, outro anarquista, Gláuber, para fazer o que seria sua última vontade: instaurar a bagunça em seu enterro e registrá-lo para a posteridade. Não poderia talvez esperar que uma medida judicial da própria família viesse reinstaurar a ordem que dizia detestar.
As ironias não páram por aí. Alguns anos depois, Gláuber Rocha morreu. O cineasta Sílvio Tendler teve a mesma idéia de Gláuber quando da morte de Di. Munido de uma câmera, foi ao velório do cineasta e filmou-o. Ato contínuo, a montagem das imagens foi vetada pela família de Gláuber. Essa simetria macabra acaba de ser desfeita com a liberação das imagens pelos sucessores do cineasta baiano. É, pelo menos, uma novela que termina.


