As feições angelicais facilmente poderiam encaminhar Regiane Alves para o óbvio papel de mocinha romântica. De fato, a atriz experimentou o posto algumas vezes como a doce Ana Clara, de "Fascinação", do SBT, e a inocente Belinha, de "Cabocla", da Globo. No entanto, a intérprete da moderna Renata, de "Sangue Bom", optou por outro caminho.
E foi por suas personagens menos "ortodoxas", como a Dóris, de "Mulheres Apaixonadas", e a Cristiane, de "A Vida da Gente", que ela se destacou na tevê. "Tenho personalidade forte. Acho que é por isso que as pessoas dizem que tenho alma de vilã", argumenta, aos risos.
Aos 35 anos, a atriz, natural de Santo André, no ABC paulista, em nada lembra a menina tímida e insegura que estreou no folhetim que Walcyr Carrasco escreveu para o SBT em 1998. Tampouco a jovem que foi testada pelo diretor Ricardo Waddington na ânsia por uma oportunidade na Globo, em 2000. "Tinha propostas de outras emissoras, mas fiz um vídeo para ele. Três dias depois, assinei com a Globo", lembra.
"Sangue Bom" é o 20º trabalho de Regiane na emissora e marca o reencontro da atriz com um texto de Maria Adelaide Amaral – responsável por "A Muralha". De lá para cá, a atriz percorreu uma trajetória marcada por personagens heterogêneas. "Pautei minha carreira pela versatilidade. Sou muito cuidadosa com o que faço. Me dedico para fazer minhas personagens acontecerem", garante.

Você estreou na Globo em "A Muralha" de Maria Adelaide Amaral e com colaboração de Vincent Villari. É mais confortável trabalhar com autores com cujo texto você já tem mais intimidade?
Claro, "A Muralha" foi um trabalho muito feliz. Facilita para mim e para o autor, que já sabe como é o meu trabalho. Sou amiga do Vincent há anos, mas nunca consegui voltar a trabalhar com ele. Quando ele estava escrevendo, eu estava escalada para outro projeto. Foi muito carinhoso dos dois escreverem um papel pensado para mim. É muito gostoso, após 13 anos de Globo, alguém pensar em uma personagem com detalhes para você.

Sua personagem tem bases muito naturalistas. Como foi a construção para o papel?
Foi um trabalho bem detalhado porque a Renata tem muitas nuances. Queríamos mostrar uma garota comum e que não caísse para o estereótipo da "periguete" – muito comum nas novelas atualmente. A história do Érico e da Renata é sobre o fim de uma relação de 15 anos. Vi um filme exatamente sobre isso, "Entre o Amor e a Paixão". Montei o perfil de uma garota que não tem coragem de largar uma relação estável de anos. Há tempos que não tinha um papel tão dramático assim.

Sua primeira experiência na tevê foi como protagonista de "Fascinação" do SBT e, 10 anos depois, voltou ao posto em "Beleza Pura", da Globo. Você se considerava preparada na época para encarar uma personagem principal no início da carreira?
"Fascinação" era uma novela que nem era para ser exibida no Brasil. Era muito "verde" e não tinha a menor noção de televisão. Não estava pronta para a tevê. Percebi que precisava estudar muito ainda. Em 2008, minha trajetória na Globo era mais sólida. Já tinha feito de tudo aqui, desde a mocinha de época até a menina que maltrata os avós. Foi feita uma reunião na emissora e me falaram que faltava apenas esse posto. Mas não faço questão de ser protagonista.

Por quê?
É um excesso de trabalho muito forte e a qualidade da sua atuação cai um pouco. Quando você faz uma coadjuvante, tem mais tempo para estudar e montar a personagem. Na pele da protagonista, você tem de cumprir cenas, lidar com a pressão da audiência, de contar história e de estar bem. Não me faz falta. Não é uma coisa pela qual batalhe ou peça na Globo.

Mesmo com as feições angelicais, você é muito lembrada pelas vilãs que interpretou, como a Clara, de "Laços de Família", e a Dóris, de "Mulheres Apaixonadas". Por quê você acha que isso acontece?
O José Luiz Villamarim (diretor) diz que eu tenho alma de vilã (risos). Não sei se é porque é tão o meu oposto que acaba dando certo. Às vezes, me questiono por que me chamam para esse tipo de papel. Devo ter uma personalidade muito forte. Senão, as pessoas não me escalariam. Dez anos depois, o público ainda lembra da neta que maltratava os avós. Foi um divisor de águas na minha carreira. Gosto de ser lembrada pelas minhas vilãs.

"A Vida da Gente" foi a primeira vez que você pôde fazer uma comédia mais escrachada na tevê. Você buscava isso?
Teve uma época na minha vida em que eu queria fazer mais comédia. Eu procurei esse lado. As pessoas me falavam que eu tinha de cair para comédia, mas eu resistia. Achava que era muito próximo da minha pessoa e que aquilo não iria imprimir verdade. Eu adorei essa oportunidade em "A Vida da Gente". Eu vi o quanto é difícil e injusto fazer comédia. Nunca são vistos como bons e grandes papéis. Em "Tempos Modernos", eu já tive o início dessa abertura para comédia.

Walcyr Carrasco é um dos autores da atualidade que mais emplaca novelas na Globo e você estreou com ele na tevê. Nunca surgiu a oportunidade de trabalhar com o autor novamente?
Eu quase fiz "A Padroeira". Mas eu tinha acabado de sair de "Laços de Família" e estava muito cansada. Sempre que tem uma novela dele, eu fico na boca para entrar, mas nunca vai. É a mesma coisa com a Glória Perez. Estava reservada até o último ponto para "Salve Jorge", mas então o Dennis me reservou para "Sangue Bom".

Ser disputada por diversos autores envaidece?
Tenho muito os pés no chão. Acredito que sou muito cuidadosa com meu trabalho e isso é um reflexo. Amo o que faço. Trabalho independentemente do tamanho do papel. Acho que é isso que fica evidente nos projetos em que me envolvo. Mas ainda tenho muito o que melhorar, aprender e amadurecer. E claro que, com 13 anos de Globo, é muito bom saber que os autores gostam do meu trabalho.

mockup