Rosana Alcântra: "Em Londrina, há uma junção de experiências empresariais que podem fazer surgir um cluster, um projeto pioneiro forte para o desenvolvimento regional"
Rosana Alcântra: "Em Londrina, há uma junção de experiências empresariais que podem fazer surgir um cluster, um projeto pioneiro forte para o desenvolvimento regional" | Foto: Anderson Coelho



A ex-diretora da Agência Nacional de Cinema – Ancine – Rosana Alcântra, esteve em Londrina na última quinta-feira (2) para um encontro com os membros do Núcleo Audiovisual de Londrina – NAV. O encontro, realizado na Secretaria de Cultura, teve como objetivo discutir os possíveis caminhos a serem seguidos por produtores e empresários londrinenses para fazer crescer uma área que teve grande destaque em 2016 no Brasil: o audiovisual.

Em contraponto à crise política e econômica que paira sobre o país, o setor teve um crescimento de 8,8% de acordo com dados da ANCINE. Foram lançados 143 filmes brasileiros que venderam 30,4 milhões de ingressos. Para Alcântra, isso só foi possível devido ao investimento que já dura dez anos na produção, distribuição e comercialização de filmes brasileiros.

Em Londrina, assim como em outras cidades fora do eixo Rio-SP, criou-se um polo de produção cinematográfica que chama a atenção. É por isso que, em 2016, sete produtoras da cidade resolveram criar o NAV com o intuito de organizar e otimizar a produção local. Para isso, o núcleo busca uma parceria com empresas que possam investir no setor e auxiliar no crescimento da produção local. Estiveram presentes à reunião representantes da Sercomtel, Oníria (empresa de games), Associação Comercial e Industrial de Londrina (ACIL) e o diretor de turismo do Instituto de Desenvolvimento de Londrina (CODEL). Também estavam presentes o secretário municipal de cultura Caio Cesaro e a ex-secretária Solange Batigliana. Esse elenco revela que o objetivo não só é produzir, mas tornar a cidade um atrativo para quem vem de fora.

Na reunião, Rosana Alcântra orientou produtores e empresários sobre como agir diante de burocracias e limitações econômicas, e explicou que o que deve existir são modelos de negócios em associação com as políticas públicas. Em entrevista à Folha2, a diretora que acabou seu mandato no último dia 4, discorreu sobre o assunto.

Se o país está em crise em muitos setores, como se explica o crescimento do cinema nacional?
O crescimento é fruto do resultado de políticas públicas de investimento como um todo nos últimos dez anos. A gente vê crescimento todo ano no número de filmes que tem sido lançados. Acho que o povo brasileiro tem recebido bem melhor o conteúdo nacional, então a gente tem tido ao longo desses anos obras que tem feito de 2 a 4 milhões de (espectadores?) público, e isso vai criando uma cultura geracional de frequentar as salas de cinemas para assistir a conteúdo brasileiro. Naturalmente isso estimula o diretor, o roteirista a escreverem, produzirem e organizarem obras a serem lançadas.

Pelo que você viu na reunião com o NAV, você acha que Londrina tem como incrementar a sua produção audiovisual?
Acho que a região metropolitana de Londrina está muito preocupada em buscar o seu local de desenvolvimento no audiovisual. Então vejo com bons olhos a produção de dois longas metragens aqui ao longo do ano passado, isso é fruto das políticas públicas desenvolvidas, uma com muito esforço da produtora e outra fruto de um edital das tevês públicas desenvolvido pela Ancine. Acho que em Londrina estão muito preocupados em desenvolver não só a produção mas também um lugar para o audiovisual, buscando inclusive pensar em projetos pilotos focando no desenvolvimento regional, em film commissions e coisas desse tipo, o que me parece muito importante, muito interessante para o desenvolvimento da região.

O desafio aqui é como juntar diferentes atores empresariais e políticos no sentido de ter como centralidade o audiovisual e culminar com o desenvolvimento regional. O que me parece muito interessante. A Ancine trouxe dados e elementos que nos ajudam a refletir, a somar, para pensar num projeto estratégico de desenvolvimento regional que veicule como centralidade o audiovisual.

Você acha que o desafio aqui é ter esse diálogo entre quem produz e os empresários?
Sim.

Você acha que esse diálogo está limitado?
Não está limitado. Acho que eles estão se colocando o desafio de crescer, e isso é muito positivo. Eles estão olhando o nacional e se veem muito distantes da capital do estado. O que é absolutamente natural pela proximidade com São Paulo.
Aí, somaram também o olhar, que eu achei interessante, dos games que também se inserem no audiovisual, somaram o olhar da indústria hoteleira e turismo, que soma, e também das telefônicas regionais que estavam aqui. Então é uma junção de esforços, de experiências empresariais, que podem fazer surgir um cluster, um projeto pioneiro muito forte para o desenvolvimento regional e substancial das capitais. Vejo com bons olhos.

Você acha que o medo da descontinuidade das políticas da Ancine é justificável neste momento?
Acho que é uma preocupação com relação à continuidade das balizas das políticas públicas. Mas acho que o setor do audiovisual tem alto grau de institucionalidade. Nós temos leis importantes com alta aplicabilidade, acho que a agência está dotada de excelente capacidade regulatória, com servidores que sabem a sua missão, o seu dever de casa. Não acredito que vá haver descontinuidade das políticas públicas centrais desenvolvidas ao longo desse último período para o audiovisual.

Se você fosse apontar os pilares que sustentam esse crescimento e, talvez, a continuidade da administração, o que você diria sobre o que é essencial para a Ancine?
Acho que a Ancine tem três pilares muito importantes. Um pilar que é o de regulação dos agentes hegemônicos do mercado audiovisual. Há regras muito claras, colocadas nas leis - especialmente a lei da TV paga - de funcionamento, regras de organização de cada uma dessas empresas, da política de compras de conteúdo brasileiro, de conteúdo qualificado, com limites para publicidade para TV paga. Está tudo bem estabelecido em legislação.
Outro viés muito importante, que ajuda no processo anterior ao regulatório, é o de informações. A Ancine acessa diretamente, através do seu poder regulatório, informações que alimentam os setores com informações de performances e desenvolvimento de todo o setor audiovisual que nos permite publicar, por exemplo, vários relatórios de cada um desses segmentos. O segmento de salas de exibição, dados de produção, distribuição e exibição. Isso nos permite ter um conhecimento de dados importantes do conjunto de desenvolvimento do audiovisual no Brasil, o que permite, por exemplo, fazer e acompanhar de perto os dados do IBGE e formatar o PIB do audiovisual, que dá uma visão de horizonte, uma visão de perspectiva dos agentes econômicos do mercado e de segurança jurídica para continuar investindo nesse mercado.
E o terceiro pilar, talvez o mais importante, é o do financiamento. Dentro desse viés tem a operação dos incentivos fiscais e a operação do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), que hoje é um dos principais propulsionadores da política de financiamento do audiovisual. Acho que o sucesso do Fundo Setorial do Audiovisual está pela visão republicana. O fundo tem editais, critérios amplos de pleno conhecimento do setor, com comissões e comitês organizados pelos agentes do mercado, e pelos servidores da Ancine, onde estão todas as regras estabelecidas, discutidas, pactuadas e implementadas num tempo razoavelmente bom que permite a contratação e o desenvolvimento desses projetos. O terceiro pilar é a capacidade de você falar com o Brasil inteiro, atender demandas nacionais, republicanas para produções cinematográficas que atendam desde o desenvolvimento dos projetos, de filmes que buscam ter uma trajetória em mostras e festivais, até grandes blockbusters brasileiros. Acho que a chave está em você conseguir atender à diversidade da demanda do audiovisual brasileiro.

A gente fala muito de auxiliar a produção. Você não acha que na hora de veicular é um pouco inacessível?
O desafio da distribuição é um desafio mundial. O Brasil também tem um desafio forte para a distribuição. Nós temos conseguido trabalhar com os agentes econômicos para conseguir ter mais e melhor disponibilidade do conteúdo brasileiro. Mas esse não é um desafio simples. Nós tivemos um número muito bom de ingressos vendidos de filmes brasileiros e não brasileiros também. O hábito de ir ao cinema é um hábito forte no Brasil, mas a distribuição de cinemas ainda requer ajustes para melhorar sua capacidade, ter mais equalização entre filmes brasileiros e não brasileiros. Junto com isso, tem um desafio importante, que é o desafio do digital. Não podemos imaginar que os dados da década de 60 e 70 vão se repetir agora, entendeu? Porque hoje você tem um sistema de vídeo sob demanda.


No ano passado, 29 filmes foram dirigidos por mulheres. Você acha que a mulher está alcançando mais espaço dentro do audiovisual?
Acho que o debate da sociedade sobre o papel da mulher no audiovisual avançou, nós já temos uma participação feminina muito forte na produção executiva das obras, e vemos com muito bons olhos o avanço na direção das obras, 20% não é desprezível. O esforço que nós fizemos foi o de colocar nas produções do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), desde o princípio, comissões paritárias. Então esse é um esforço que toda vez que você vai decidir pessoas do mercado, pessoas de dentro da casa vão analisar os projetos e colocar uma paridade de gênero. Fizemos isso há um ano, e imagino que os debates, fruto dos olhares diferenciados e agregados nessas comissões, podem estar ajudando nesse sentido.

mockup