Caminhos difíceis para o turismo no Rio
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de fevereiro de 2004
Roberta Pennafort<br> Agência Estado 
Rio - Cidade-símbolo do Brasil no mundo e destino de quase metade dos estrangeiros que vêm ao País, o Rio de Janeiro tem problemas no setor turístico que não são compatíveis com sua beleza e inequívoca capacidade para atrair visitantes. Desde que chegam até ir embora, os turistas, sejam do exterior ou brasileiros vindos de outros Estados, enfrentam uma série de dificuldades, impostas pela infra-estrutura falha.
Os percalços começam já no Aeroporto Internacional Tom Jobim, principal porta de entrada do Rio. Não há vagas suficientes para os ônibus de turismo, que transportam os visitantes até os hotéis. Os motoristas acabam estacionando em lugares não regulamentados, correndo o risco de serem multados ou de terem de pagar propina para os guardas liberarem a parada. Há casos em que eles só conseguem parar longe da saída e os grupos têm de esperar, em pé, até que a manobra seja feita.
''Trabalho nisso há 25 anos e o problema nunca foi resolvido. No Rio, não há lugar para ônibus de turismo, só os táxis têm vez'', disse Gerson Santos, de 52 anos, motorista da empresa JW Transportes e Eventos. Quando conversava com a reportagem, ele teve a sorte de conseguir estacionar na única vaga demarcada para ônibus no terminal dois do aeroporto internacional, enquanto esperava sete alemães.
Quem depende dos táxis para se deslocar pode acabar caindo numa cilada. No Tom Jobim, táxis comuns, regularizados e com taxímetro, dividem espaço com carros particulares, dirigidos por motoristas que oferecem seus serviços dentro do terminal. Eles abordam o turista logo no desembarque, oferecendo-se para transportá-lo por um preço muito maior do que o cobrado pelos táxis comuns. Uma corrida até Copacabana, por exemplo, que custaria cerca de R$ 40, não sai por menos de R$ 100.
Intimidado, o visitante, especialmente o que vem de fora, acaba cedendo. Taxistas que exploram os passageiros estão por toda a cidade. E não só os estrangeiros são extorquidos. O estudante Rodrigo Soares, de 16 anos, de Londrina, disse que quando eles percebem, pelo sotaque, que a pessoa não é do Rio, cobram muito mais caro.
''Eles sabem que a gente não conhece o caminho, então escolhem um trajeto mais longo'', contou Rodrigo, quando visitava o Corcovado com companheiros de viagem também de outros estados. Ele disse que um taxista cobrou R$ 50 para levar um amigo seu da Rodoviária Novo Rio até a Tijuca. O preço certo seria menos da metade.
O Corcovado e o Pão de Açúcar, os pontos turísticos mais visitados da cidade, têm problemas comuns: excesso de ambulantes, que, em bando, cercam os turistas com todo tipo de produto, deixando-os acuados, falta de estacionamento regulamentado para ônibus de turismo e também de um lugar próprio para o embarque e desembarque dos passageiros.
A australiana Georgia Burk, de 18 anos, abordada por vendedores na entrada da estação do Corcovado reclamou. ''É irritante. Mas eles têm que ganhar dinheiro de alguma forma'', ponderou. Além dos camelôs, no Corcovado existe um outro mal crônico: os taxistas conhecidos como ''bandalhas''. Mostrando fotos de paisagens, eles assediam quem chega à estação do Cosme Velho vendendo um passeio de até R$ 60 (o dobro do valor cobrado pelo tíquete do trenzinho), pela estrada que leva ao monumento do Cristo. Para convencer os turistas, eles mentem: dizem que o trenzinho seguinte só sairá dali a uma hora e até que o freio está quebrado e que poderá provocar um acidente.
A carência de sinalização nos acessos ao Pão-de-Açúcar e do Corcovado deixa muito turista perdido. Muitas vezes, elas são arrancadas ou depredadas por guias ilegais, que, com isso, forçam os visitantes a pedir informações a eles. ''Há quatro anos, nós e o Pão de Açúcar mandamos instalar 52 placas na zona sul. Hoje, só existem quatro de pé'', conta Sávio Neves Filho, diretor do Trem do Corcovado.
Entre os vândalos estão crianças de comunidades carentes do entorno, que se dizem ''guias mirins'' ou ''acompanhantes''. Elas teriam danificado uma placa localizada na Rua Cosme Velho, a cerca de 300 metros da estação. A seta indicando o caminho da estação foi pintada. ''Quando o turista se aproxima para pedir orientação, eles aproveitam para vender passeios, mesmo sem ser guias'', contou Sávio Neves Filho.
Os guias de verdade, aqueles credenciados pela Embratur, criticam a falta de infra-estrutura para o turismo na cidade. ''A falta de estacionamento é um dos principais problemas. Ao chegar aos hotéis da orla, os turistas têm de desembarcar no meio da rua, entre os carros. Já houve vários casos em que por pouco eles não foram atropelados'', disse Wagner Medeiros, vice-presidente do sindicato da categoria. Ele afirmou que os turistas costumam reclamar da falta de organização. ''Tudo é feito de forma improvisada e isso dá uma péssima impressão. Parece que os turistas vieram sem que a gente esperasse. Quando um deles vem me fazer uma crítica, eu não escondo nada: digo que a cidade é maravilhosa sim, mas não tem condições para o turismo'', disse. ''Os turistas merecem muito mais do que oferecemos, porque geram emprego e deixam dinheiro na cidade.''


