Curitiba - Ainda é noite quando um grupo de meninos e meninas saem de casa rumo à escola, na colônia de Castelhano, a 120 quilômetros de Curitiba. Apesar da proximidade com a capital, o local tem apenas um telefone público e para chegar à escola mais próxima algumas crianças caminham por cerca de uma hora até o ponto em que passa uma condução, uma kombi cedida por São José dos Pinhais, município mais próximo. Para vencer a escuridão, ao sair de casa, muitas crianças levam uma prosaica lanterna feita de latinha de alumínio e vela. Esse universo peculiar é mostrado pela diretora Heloisa Passos no telefilme ''Caminho da Escola''.
Premiado pela Secretaria de Estado da Cultura no edital de cinema lançado no ano passado, o filme pretende mostrar a realidade de Castelhano e Guaraqueçaba, no Litoral do Estado. As filmagens na colônia próxima à Região Metropolitana de Curitiba encerraram nos primeiros dias de setembro e continuam em novembro na comunidade litorânea. O filme tem previsão de lançamento para fevereiro de 2006. A idéia do roteiro surgiu quando Heloisa assistiu ao filme francês ''Ser e Ter'', que aborda a realidade de uma comunidade rural na França. ''Eu me apaixonei pela história e percebi que aqui no Brasil também tínhamos farto material para abordamos esse tema'', conta a diretora.
Em parceria com a pedagoga Emília Hardy, Heloisa começou a construir o roteiro para inscrever no primeiro edital estadual, que previa recursos de R$ 180 mil para a realização do telefilme. Antes de elaborar a história, porém, a equipe fez uma vasta pesquisa para encontrar comunidades paranaenses que coubessem na temática. Não foi difícil.
A pesquisa, com dados obtidos pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), apontou que 10,6% dos meninos e meninas brasileiros que vivem fora das grandes metrópoles não estão na escola e 63% dos veículos que transportam crianças para suas escolas são inadequados (quando existem). De acordo com o estudo realizado pela equipe de filmagem, ainda tendo como fonte o Inep, 23 mil crianças em 218 municípios brasileiros não podem ir à escola por falta de transporte disponível. E as que frequentam escolas, muitas vezes percorrem caminhos longos e tortuosos para chegar às instituições.
Em Castelhano, por exemplo, as crianças atravessam estradas de terra, além de uma perigosa ponte sobre um rio. A colônia tem 300 habitantes. São cerca de 60 famílias e aproximadamente 20 crianças que estudam no ensino fundamental. A diretora do filme optou por contar essa história por meio de uma personagem específico: Hugo, um garoto de oito anos, que está na segunda série do Ensino Fundamental.
O menino caminha cerca de 20 minutos até chegar no ponto em que a condução passa. A realidade dele e da família do garoto está sendo contada no telefilme. ''O filme não tem muitas entrevistas. Eu optei por contar a história através desse personagem e abordar temas periféricos por meio da família e das pessoas ligadas a ele'', argumenta Heloísa.
A própria equipe de filmagem embarcou na realidade da pequena colônia antes das filmagens começarem. Eles alugaram uma casa na região e com a ajuda de uma kombi transportavam os equipamentos de gravação. ''Passamos por alguns imprevistos. Por exemplo, achávamos que a condução da escola iria quebrar um dia. Não quebrou, mas a nossa kombi enguiçou'', brinca a diretora. Outra coisa, foi se acostumar com a falta de telefone, já que na localidade não pega celular e tem apenas um telefone público, ainda assim, distante do QG da equipe, e da falta de mordomias urbanas. ''Mas eu me acostumei com o silêncio'', diz Heloísa.
A diretora nasceu em Curitiba. É formada em Agronomia e Sociologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Estudou fotografia em Londres e no final da década de 80 abriu a Máquina Produções, responsável também pela produção de ''Caminho da Escola''. Na década passada, Heloísa mudou para São Paulo e há cinco anos está participando ativamente de vídeos, curtas-metragens e documentários, seja como diretora de fotografia, como diretora ou produtora. Também produziu o premiado ''Cartas da Mãe'', de Fernando Kinas, diretor de teatro que vários anos atuou em Curitiba.
No currículo de Heloísa está ainda a direção e produção executiva do curta metragem ''Do Tempo Que Eu Comia Pipoca'', que ganhou o Prêmio de melhor cinematografia no Eclipse Film Festival em Utah-U.S.A - 2001, melhor trilha sonora no Festival de Curitiba, 2001 e melhor direção de arte no Braziliam Film Festival em Miami em 2002. Até o início do ano que vem, a diretora estará envolvida com o projeto ''Caminho da Escola'', que está sendo rodado em 16 mm e digital. Depois da conclusão do telefilme, que deve ser exibido na TV aberta, a diretora que inscrever o projeto na Lei do Audiovisual. ''Acho que temos locações e realidades que nos permitem fazer um ''Caminho da Escola'' em todo o Brasil'', conclui.

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