A trilha propriamente dita começa no Tronqueirão. São nove quilômetros de árdua e íngreme caminhada, subindo em pedras e cortando nascentes de rios, atravessando um cenário bem ao estilo velho oeste norte-americano com vegetação de campos de altitude, em terreno rochoso. Não é preciso levar cordas e não há paredões de escalada.
Quatro quilômetros e meio depois chega-se a um lugar muito curioso chamado Terreirão, onde todos descansam um pouco, outros até acampam. Um bom lugar para fazer amizades com visitantes de várias partes do País e também da Europa. Detalhe, as mulas e cavalos terminam sua jornada neste local.
Para não passar muito tempo sofrendo com o frio no cume, é recomendado retomar a caminhada duas horas e meia antes do nascer do sol. Este segundo trecho da trilha é o mais íngreme e mais difícil desta aventura. O terreno é bem mais acidentado, com degraus altíssimos de pedra, que dão um charme especial ao lugar. Neste ponto é fundamental fazer pausas para se acostumar com a altitude e recuperar o fôlego.
Depois de duas horas e meia de caminhada, sempre subindo em ângulos de 90 graus, chega-se a um platô não muito grande. A adrenalina dispara, o vento é cortante e o visual, maravilhoso: um mar de minimontanhas, luzes de algumas cidades perdidas lá no horizonte, e no céu aquela lua gigante, bem perto de nossas cabeças, iluminando tudo.
Na primeira noite da lua cheia, que será no dia 16, o pôr-da-lua deve acontecer quase que simultaneamente ao nascer do sol, um espetáculo ímpar. O único problema é o frio. Mesmo com luvas, as mãos gelam, o corpo congela, e o jeito é procurar um cantinho sem vento, atrás do pequeno Cristo Redentor, ou da torre do pára-raio. Há também ruínas de uma casa de madeira, que teria sido queimada por aventureiros, na tentativa de fazer uma fogueira para espantar o frio. Talvez haja um fundo de verdade nisso. Quando você pára de andar o suor que molhou sua roupa começa a gelar o corpo, e o frio parece ser muito mais intenso. Por isso, é bom colocar jornal embaixo da roupas para que o suor não as molhe.
A volta é mais rápida e à luz do sol. No começo, os pés estão ainda um pouco gelados, mas depois tudo é mais fácil. ‘‘Geralmente, são quatro horas para subir e mais três para descer’’, frisa Paulinho, um dos melhores guias da região. Mas ele salienta que o número de horas aumenta ou diminui dependendo da condição física do turista. A descida é suave, mas exige atenção para evitar tombos. Para quem não quer encarar o frio, uma boa opção é fazer a caminhada de manhã para curtir o pôr-do-sol no cume, voltando em seguida e fugindo do frio da madrugada.
Já na cidade e refeito do trauma do frio, uma boa opção é ‘‘ter um dedo de prosa’’ com Antonio Pereira Leite, que faz doces de leite e de frutas fantásticos, e tem muita história para contar. Ele morou durante 40 anos no Vale Verde, área próxima a portaria, onde tinha um sítio com cinco alqueires, que foi desapropriado justamente por causa da criação do parque. Seu Antonio tem o mapa da trilha do Pico da Bandeira guardado na mente e conhece todas as lendas da região. ‘‘Naquela época, todos os dias, às 9 horas o pico refletia numa lagoa que hoje não existe mais’’, lembra.

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