São Paulo, 14 (AE) - A questão central da ópera "Parsifal", de Wagner, repousa sobre a redenção da humanidade por um inocente. Na peça do alemão Tankred Dorst "Caminho de Parsifal", que estréia amanhã (15), no Instituto Goethe, não é muito diferente. Parsifal é também o "tolo inocente" esperado pelos cavaleiros do Graal, mas, como se trata de Dorst, não há mais nenhum Graal a ser procurado e a humanidade está como sempre esteve: à beira do abismo. Sem redentor. Seu Parsifal anda por uma terra desolada e ocupada por prostitutas, mendigos e homens que abandonam os filhos para buscar iluminação na floresta.
É a segunda peça de Dorst que o diretor Sérgio Ferrara encena. No ano passado ele dirigiu "Senhor Paul" no mesmo Goethe, drama que punha no palco as contradições de uma Alemanha dividida entre a velha e a nova ordem, contando a história de um morador de uma antiga fábrica desativada e prestes a ser demolida. Conhecido do público brasileiro desde 1972, quando sua peça "A Grande Imprecação diante dos Muros da Cidade" foi montada no Teatro São Pedro, Dorst fala em Parsifal de seu tema preferido: o mundo das aparências e a troca das almas.
"Nesse Parsifal, nada é o que aparenta ser, como Gawain
que finge ser o rei Arthur, que tampouco existe", observa Ferrara, diretor de outra peça em cartaz, "Barrela", de Plínio Marcos. Entre uma história real de prisão e outra sobre a prisão metafórica de um homem à idéia de pureza, Ferrara observa que optou pelo título "Caminho de Parsifal" por resumir com exatidão o tormento de alguém que busca a verdade e é acossado num mundo degradado. Entre puros que buscam o Santo Graal e pagãos degenerados, o elenco de 14 atores ainda se submete a outro personagem que entra de contrapeso, um autor de vida opaca criado pela voz em off de Ferrara. É uma espécie de Merlin (personagem maior na dramaturgia de Dorst), que vê cada homem sobre o planeta engatinhando no reino da utopia. "Em síntese, seu Parsifal é o inocente guiado por seus instintos em conflito com a razão", define Ferrara. "O autor se vê por intermédio da experiência do outro", conclui.
A montagem de Ferrara suprime passagens inteiras da peça original, que tem 65 personagens. Tem a duração de 80 minutos e usa na trilha sonora excertos do novo disco de Ryuichi Sakamoto (Discord). "Evitei durante muito tempo dirigir "Parsifal" por seu conteúdo espiritual, mas acabei optando por uma linha ritualística, o que também explica as referências ao teatro e à música orientais na encenação", justifica o diretor. Srviço - "Caminho de Parsifal". Drama. De Tankred Dorst. Direção de Sérgio Ferrara. Duração: 1h20. Sexta-feira e sábado, às 21 horas; domingo, às 20 horas. Ingressos R$ 10,00. Instituto Goethe. Rua Lisboa, 974, tel. 280-4288. Até 12/12

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