Num mercado em que não existem informações precisas, como o de arte, em que qualquer modelo de avaliação do valor de uma obra conta com algumas demãos de subjetividade, o provérbio chinês ‘‘numa montanha que não tem um tigre, macaco é rei’’ pode explicar verdadeiros micos escondidos atrás de obras, artistas e exposições sem grande relevância ou contribuição para o panorama artístico.
  ‘‘O público londrinense não tem culpa nenhuma do mercado de arte estar assim. Os culpados são os artistas plásticos que não investem no próprio trabalho. O mal da arte moderna, que é produzida pela maioria, é que muitos fazem só para se diferenciar. Esses artistas não conseguem criar seguidores, como antigamente’’, comenta David Wang, artista plástico de Londrina, que nasceu em Taiwan, mas desde os 13 anos mora no Brasil.
  Ainda que muitos macacos queiram ser reis, como ilustra o provérbio dos ancestrais de Wang, artista que já expôs na Itália e China e se prepara para entrar no mercado norte-americano, não conseguirão enganar para sempre – uma seleção natural do mercado, que acaba separando o joio do trigo.
  Como sobreviver nessa cadeia alimentar do comércio de arte em que os mais fracos – entenda-se os que não apresentam um trabalho consistente – acabam sendo devorados? ‘‘Estou encarando um novo desafio ao pretender entrar nos Estados Unidos. Os norte-americanos têm uma visão mais moderna e avançada, resgatando a coisa da arte técnica. Ainda apreciam a arte moderna, conceitual, mas também se importam com a técnica’’, afirma Wang ao defender que os artistas plásticos precisam aprimorar o pulo do gato.
  Ele pretende entrar num mercado que José Gonçalves, outro artista plástico de Londrina, já conhece desde 2000, quando expôs pela primeira vez na Judi Gallery, nos EUA. Gonçalves não parou mais de realizar exposições nos EUA, devendo retornar em breve de mais uma temporada em São Francisco.
  Como ele, Wang e Isabel Santta Cecília, que recentemente participou da Artexpo de Nova York, uma das maiores feiras do mundo, tentam conquistar a América. Porém, a maioria dos artistas locais não consegue sair do quintal de casa, enfrentando dificuldades para sobreviver da própria arte.
  Londrina é uma cidade que oferece alguns espaços para a realização de exposições, mas apenas uma galeria, que realmente comercializa obras de arte. ‘‘Acho que são poucos espaços e os responsáveis não têm muitos critérios para selecionar o que será exposto. Acredito que parte do público tem pouca informação’’, afirma Juliana Miranda de Freitas, chefe interina da Divisão de Artes Plásticas da Casa de Cultura da Universidade Estadual de Londrina (UEL), lembrando que para expor no órgão, os interessados precisam participar de um edital e ter o trabalho crivado por uma comissão de avaliação, além da apresentação de texto crítico e currículo.
  Macaco nunca será tigre, isso todo mundo sabe, mas na cabeça de grande parte do público consumidor, as artes plásticas são sinônimo de decoração, o que compromete o mercado. Quando as pessoas compram um quadro para combinar com o sofá da sala, acabam fechando as portas para muitos artistas.
  Maria Carla Guarinello de Araújo Moreira, que por 15 anos esteve à frente da chefia da Divisão de Artes Plásticas da Casa de Cultura da UEL, professora do Departamento de Artes da instituição, concorda que, ao contrário das outras manifestações artísticas, as artes plásticas ainda têm pouca ressonância entre o público, o que interfere diretamente no mercado.
  ‘‘Uma coisa é essa questão de mercado de arte e outra é a arte enquanto conhecimento. Apesar de caminharem paralelamente são coisas distintas. Alguns trabalhos que têm apelo entre o público não produzem uma ressonância no âmbito do conhecimento geral. Há algumas questões que precisam ser melhor compreendidas. O maior boom da arte foi nos anos 80, mas também representou um momento de crise criativa. Acredito que o público vem ampliando, cada vez mais, também em Londrina, mas acho difícil os artistas plásticos londrinenses sobreviverem somente da arte. Eles não são exceção. Em grandes instituições de ensino, você vê que 50% dos docentes dos cursos relacionados às artes são artistas’’, avalia Maria Carla.
  Há 35 anos, Ana Barreto está à frente da Bahiarte, uma das cinco mais antigas galerias de artes brasileiras, enfileirando grandes nomes em sua trajetória de marchande, como Aldemir Martins, Juarez Machado, Sérgio Ferro, entre outros. ‘‘Não é só em Londrina que o mercado de arte está difícil, mas o Brasil vem sofrendo com o problema. O que a gente ouve da maioria dos que trabalham com arte é que as pessoas estão evitando comprar quadros. A cultura não é considerada importante’’, afirma Ana Barreto.
  A marchande ressalta que a sua galeria sempre esteve aberta aos artistas londrinenses, mas que, em se tratando de artes plásticas, os paranaenses têm uma visão regionalista para uma expressão que na essência é universal.
  Na montanha cobiçada por muitos micos, que querem rugir feito tigres, Ana Barreto diz que já precisou, com muita delicadeza, lembrar que o mercado quer, além de criatividade, técnica e qualidade. ‘‘Londrina não pode entrar nessa de ter artistas somente com pretensões locais porque ao saírem daqui não serão conhecidos’’, explica a marchande.
  Sonhar com o mercado internacional também é vislumbrar uma montanha difícil de ser escalada, na opinião de Ana Barreto. ‘‘É difícil os sul-americanos conseguirem entrar no mercado dos EUA. Quando muitos artistas dizem que estão expondo na América, não é verdade. Muitos brasileiros conseguem vender seus quadros em restaurantes e lojas, mas dificilmente expõem em galerias’’, afirma Ana Barreto, citando a Suíça como uma direção tomada por muitos brasileiros que querem fazer carreira internacional. Mecenas suíços têm investido em artistas do Brasil, como Élon Brasil.
  Para os que querem reinar como um tigre de verdade sobre a montanha das artes plásticas, Wang dá um alento: ‘‘Eu não só sobrevivo da arte, mas vivo muito feliz’’.

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