''Caminhante, não existe caminho. O caminho se faz ao caminhar'', com a citação do poeta espanhol Antonio Machado, a diretora da Casa de Cultura, Magali Kleber, descreve como está sendo a reconstrução do Ouro Verde. Três meses depois da tragédia e depois de várias noites sem dormir, hoje Magali já respira aliviada, vendo que o projeto está sendo cumprido. ''Estou feliz de poder contar com as pessoas com quem estou trabalhando. De todos os lados, vejo muita boa vontade, muito comprometimento'', afirma.
Envolvida intimamente com as várias etapas do processo de reconstrução, Magali agora está esperançosa com o futuro. Em entrevista exclusiva para a FOLHA, a diretora da Casa de Cultura fala sobre o processo de reconstrução do teatro, suas expectativas para a nova obra e sobre o papel da Universidade dentro deste processo.
Na semana passada, o Sinduscon afirmou que deve concluir um plano definitivo para a reconstrução do Ouro Verde até o final deste ano. O cronograma está sendo cumprido?
Na verdade, este é um cronograma atípico, portanto ele está sendo construído no processo. Eu sempre digo: nunca, na história de Londrina, se queimou um teatro, que ainda por cima é um patrimônio histórico tombado de maneira estadual. Então qualquer cronograma que existisse, a priori, seria um cronograma hipotético, mesmo porque nós não tínhamos o conhecimento formal para lidar com processos dessa natureza. Está sendo um aprendizado e, inclusive, nós estamos aproveitando, como Universidade, para isso se transformar em um processo pedagógico. Neste sentido, exercitamos o real papel da Universidade.
Então a reconstrução também tem esse caráter pedagógico...
Exatamente. Nós temos aqui a Casa de Cultura, que é o órgão responsável pelo teatro. Mas o Ouro Verde possui várias dimensões, tanto do ponto de vista material como do valor simbólico. Cada área vai tratar de uma forma. Isso abrange também o cronograma, porque é preciso respeitar este tempo para as pessoas entenderem essas diferentes facetas. Então eu te digo: não existe cronograma atrasado ou adiantado. Ele está sendo co-construído. Está havendo uma mobilização da sociedade em diferentes áreas do conhecimento. Eu vejo uma riqueza tão grande nessas parcerias, porque é assim que a sociedade deve caminhar, no meu entendimento. É um aprendizado e um amadurecimento para a sociedade londrinense. Não se faz nada sem o coletivo.
Deve ser emocionante participar de um processo assim...
Pessoalmente, eu fico pensando: o Ouro Verde foi construído há 60 anos, e fico admirada com a solidez da edificação e com a beleza da sua estrutura. Me espanto de ver como nossos pioneiros foram ousados. Este teatro serviu Londrina por todo esse tempo, e serviria por muito mais se não houvesse um incêndio. Isso é uma lição. Serve para refletirmos sobre o que queremos para a cidade nas próximas décadas. O que construir para as novas gerações? Acho que Londrina está precisando disso: de ousadia, de um olhar amoroso, de ações voltadas para o coletivo, e sem pressa. O imediatismo desaparece ao primeiro vento. Londrina é o que é hoje por conta de uma mentalidade que nunca pensou pequeno. Ela não construiu só mais uma rodoviária, mas sim uma obra de arte. Não fez só um teatro, fez o Ouro Verde.
Então você acredita que essa reconstrução também pode servir como um reforço para a identidade da cidade?
Acho que é uma excelente oportunidade de densificar um processo de reflexão sobre a nossa própria história e, ao mesmo tempo, de refletir sobre este compromisso que está selado há 70 anos. Se hoje nós usufruímos de tudo o que Londrina tem, isso é fruto de um processo histórico. É fruto de pessoas que acreditaram e investiram em ideias artísticas e em projeções culturais.
Em um planejamento inicial, existe a intenção de reformar o Ouro Verde com a mesma estrutura de antigamente, ou a proposta é modernizar?
Em nosso entendimento, o Ouro Verde tem uma função. Ele foi, ao longo dos anos, se metamorfoseando, embora tenha sido preservada a edificação original. Esta função é o significado do Ouro Verde. O teatro não é só um prédio qualquer. Ele é aquele prédio, aquela edificação, aquele formato, com todo aquele detalhamento. Esta é a identidade. No momento em que vamos reconstruir, temos que preservar ao máximo a edificação, mas sem nunca esquecer que aquele é, fundamentalmente, o espaço de encontro do londrinense. Lógico que estamos no século XXI, e vamos fazer avanços; mas será preservado tudo o que deve ser preservado, dentro do que prescreve a lei do patrimônio. Esse é o espaço cultural e artístico do londrinense. Mas é preciso investir também em acessibilidade e equipamentos modernos.
O compromisso com o Governo do Estado está mantido?
Claro. Eu entendo que uma vez que o governador Beto Richa falou em público, é questão de honra. Não tem discussão. Ele, por iniciativa própria, se colocou à disposição e se comprometeu para a reconstrução. Nós estamos viabilizando tudo, e quando o projeto ficar pronto, vamos falar com ele. Acredito que nos próximos 60 dias já teremos a retirada total dos escombros, para podermos fazer a avaliação técnica da estrutura, e a partir disso conseguirmos fazer um projeto da edificação.
Mas nenhum valor ainda foi discutido?
Vontade política é vontade política. Não se traduz em valores, mas sim em um compromisso que se faz publicamente, diante de uma sociedade. É o que eu penso e o que espero. Creio piamente que ele falou do fundo de seu coração, com total comprometimento do que é a função de governar.
Hoje, como você avalia a ajuda financeira das campanhas das bandanas, doações e patronato de poltronas?
É preciso entender que o cidadão tem vontade de ajudar. Ele quis isto desde o começo. Na hora do fogo, as pessoas ficam apaixonadas, então mil ideias aparecem para ajudar. Isso também foi um processo de aprendizado para nós, porque somos uma entidade pública e não podemos fazer de qualquer maneira. Hoje, temos um processo na Fauel já oficializado para possibilitar quem deseja patronar uma cadeira - que é uma iniciativa muito comum em qualquer situação de desastre envolvendo bens públicos -; temos uma conta, um procedimento, e estamos especificando detalhadamente o material que será utilizado. As bandanas foram uma iniciativa bonita da Sociedade Rural. É um empreendimento transdiciplinar. Temos sempre que ter um olhar carinhoso com essas campanhas.
Mas elas representam uma fonte de renda fundamental para a reconstrução?
No aspecto financeiro, considerando o montante, a ajuda não é fundamental. Mas ela é fundamental porque, se as pessoas querem pertencer ao processo, é uma escolha positiva. Ninguém está sendo obrigado a doar nada. Quando alguém patrona uma cadeira ou compra uma bandana, por sua escolha própria, é um sinal de apoio. São iniciativas que surgiram, na verdade, no seio da sociedade.
Em sua opinião, esse patronato está cumprindo sua função?
O mais bonito, que me emocionou, é que muitas pessoas não querem colocar seus próprios nomes nas cadeiras; eles querem homenagear os fundadores do teatro, ou inserir o nome de suas próprias famílias, de seu avós ou pais. Isso me tocou bastante, e deu uma visão diferente do que é um patronato. Mesmo porque muitas das pessoas que estiveram na inauguração do Ouro Verde ainda estão vivas, então esta tragédia também queimou o coração delas... (faz uma pausa e contém a emoção) Antes das críticas, é preciso entender. É preciso saber o significado de um patronato, e entender que as pessoas muitas vezes não fazem as coisas por vaidade, mas por amor. Nós temos que viabilizar meios para que essas pessoas canalizem seu sentimento de gratidão pelo local.
O que o londrinense pode esperar quando o Ouro Verde estiver, finalmente, reconstruído?
Vai ser uma enorme celebração, e acho que a cidade merece isso o mais rápido possível. Nós sabemos que o processo, por si só, é moroso, mas precisamos aprender a lidar com este tempo. Não estamos construindo uma coisa efêmera; estamos lidando com algo que começou seis décadas atrás, que foi se plasmando à história de Londrina e que hoje requer um novo trato, com uma visão que considere todo o processo, e que represente quem está aqui neste momento, projetando a cena cultural da cidade para muitas décadas à frente. Temos um compromisso com o nosso tempo, e isto levanta nossa crença no futuro. A reconstrução do Ouro Verde vai ser isso: um caminhar coletivo.

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