São Paulo, 07 (AE) - Polemista profissional, Camille Paglia é a segunda intelectual não ligada à crítica de cinema a assinar os volumes da coleção Artemídia, da Rocco, sobre os filmes que integram a série de clássicos do British Film Institute. Antes dela, somente o poeta Salman Rushdie escreveu sobre "O Mágico de Oz". O filme de Camille é "Os Pássaros", de Alfred Hitchcock. Em princípio, não haveria mais nada a acrescentar à obra-prima de Alfred Hitchcock. Camille consegue descobrir ângulos inovadores.
A curiosidade é que sua análise de "Os Pássaros" (131 págs., R$ 21,50) chegou às livrarias quase simultaneamente com "Sua Cara-Metade", o estudo de Wendy Lesser sobre a mulher na arte segundo a perspectiva masculina, outro lançamento da Rocco (350 págs., R$ 35). Hitchcock e "Os Pássaros" também fazem parte da análise de Wendy, que pode não ser tão famosa quanto Camille, mas também tem coisas importantes a dizer sobre como o cinema vê a sedução feminina.
Camille tinha 16 anos quando viu "Os Pássaros" pela primeira vez. Saiu convencida de que havia visto uma ode perversa ao glamour sexual da mulher, explorado por Hitchcock em todas as suas fases de sedução. Quando voltou a ver o filme - "inúmeras vezes, tarde da noite pela televisão", informa -, certos temas lhe pareceram fundamentais: cativeiro e domesticação. Ela começa o livro observando que, nesse filme como em tantos outros, Hitchcock julga a mulher cativante, mas perigosa. Ela fascina por natureza, mas é o principal artífice da civilização, um fabricante mágico de persona, cujo sorriso é, em si mesmo, uma fonte de engano.
A análise de Camille privilegia a personagem Melanie Daniels. Só isso já garante o interesse de sua leitura de "Os Pássaros". A voz corrente entre a crítica - e isso desde a estréia de "Os Pássaros", no começo dos anos 60 -, sempre foi acabar com a intérprete do papel. O menor desaforo aplicado a Tippi Hedren é que ela era fraca, ruim, a mais fria e a menos carismática das loiras frias hitchcockianas. Camille vai contra a corrente ao dizer que Tippi sempre foi para ela (e continua sendo) a suprema heroína hitchcockiana. Já era tempo de alguém fazer justiça à mãe de Melanie Griffith, a quem Hitchcock dirigiu novamente no admirável Marnie, as "Confissões de uma Ladra".
Ela começa observando que, em "Os Pássaros", Hitchcock
com profunda sensibilidade para a arquitetura, vê a casa como refúgio seguro e armadilha feminina. Dez mil anos atrás, quando o homem nômade se fixou num lugar, tomou animais a seu serviço. Mas a domesticação seria seu destino também, pois ele sucumbiu ao controle feminino. "Os Pássaros" registra um retorno dos reprimidos, uma liberação de forças primitivas de sexo e apetite que foram subjugadas, mas não domadas. São temas perturbadores que, segundo as palavras de Camille, "Hitchcock elaborou em minúcias quase fanáticas, de um modo talvez sem paralelo em sua obra; quanto mais meticulosamente se estuda esse filme, mais ele revela".
O interesse de Camille por "Os Pássaros" é anterior ao livro. Em "Personas Sexuais", ela já havia citado Hitchcock e "Os Pássaros", em particular, vendo o poder arquetípico do filme como reativação do mito grego das harpias. Quem conhece o mínimo da obra de Camille sabe de sua fascinação pela antiguidade clássica, especialmente pela cultura grega. Não por acaso, ela gosta de criticar Susan Sontag e Michel Foucault, porque eles não se interessam por nada anterior à idade moderna, pensam que a humanidade começou há 300 anos e isso para ela é ontem.
Pássaros sempre foram importantes na obra de Hitchcock, bastando lembrar as aves empalhadas no escritório de Norman Bates em "Psicose". Camille enumera essas e outras informações para tecer sua ode a Melanie, a quem define como "requintado artefato de civilização". Para a autora, ninguém representava melhor do que ela (e Tippi, sua intérprete) a mulher liberada, conhecedora do seu poder de sedução. É o que torna fascinante a análise de "Os Pássaros" por Camille Paglia. Ela chega a exagerar, afirmando que a atriz e o diretor podem ter se desentendido em Marnie, mas no plano pessoal Tippi derrotou Hitchcock no próprio jogo dele.
Janet Leigh, a Marion Crane de "Psicose", disse que nunca mais conseguiu entrar no chuveiro sem sentir medo. Embora traumatizada pela natureza animal de "Os Pássaros", Tippi deu a volta por cima e, despertada sua consciência acerca dos animais, criou com o marido uma reserva na Califórnia, onde virou rainha de tigres e leões em companhia da filha pequena, mais tarde a atriz Melanie Griffith (que não leva esse nome em homenagem a Melanie Daniels). Trindade profana - Astuciosamente, Camille faz a ponte entre a Melanie de "Os Pássaros", a Marion de "Psicose" e a Marnie do filme seguinte do mestre. Marion, Melanie, Marnie - será, pergunta Camille, uma trindade profana, com Melanie crucificada entre duas ladras? Se interpretarmos Marion como Maria, há ecos religiosos nos nomes das personagens desses filmes, que somadas a Madeleine (Madalena) de "Um Corpo Que Cai" e Eve (Eva) de "Intriga Internacional" compõem uma pentalogia bíblica. Nenhuma surpresa. Hitchcock não só era católico como foi educado por jesuítas.
Embora tratando muitas vezes de cinema (Hitchcock, King Vidor, Billy Wilder, Marilyn Monroe, Barbara Stanwyck), Wendy Lesser amplia seu estudo sobre a mulher na arte, tal como é vista pelo homem, na perspectiva da literatura, da pintura e da fotografia. Seu livro começa discutindo as teorias psicanalíticas de Freud e Lacan aplicadas às artes. Como não é lacaniana de carteirinha, a autora considera a teoria do espelho insuficiente como instrumento de trabalho. Sente falta em Lacan do sentimento de reciprocidade, ou seja, de perceber uma pessoa e ser sensível a ela.
Por isso mesmo, tenta banir o espelho de Lacan, ao transformar o mito de Narciso no dos seres divididos de Platão. É a essência de sua análise, que começa discutindo as mães. É um ponto de partida óbvio para um livro sobre artistas do sexo masculino que se dedicam às mulheres. Em Charles Dickens e D.H. Lawrence, mas também em Peter Handke, Harold Brodkey e John Berger, Wendy vê artistas que tiveram de recuperar, remodelar e, finalmente, se libertar de suas mães, na memória e na criação artística, antes de poder aventurar-se na vida de escritores.
Depois de dissertar sobre os filmes de Hitchcock e os arquétipos encarnados por Marilyn Monroe e Barbara Stanwyck - a vulnerabilidade frágil e a intencional; Barbara representa, para ela, "um desejo corajoso de adotar até os aspectos mais dolorosos da experiência" -, Wendy compara os riscos que os artistas do sexo masculino correm ao falar sobre mulheres à imagem de um penhasco. Cada um caminha vacilante pelas bordas. O ato de cair encontra-se no âmago do encontro entre homens e mulheres, entre o artista e sua inspiração. Hitchcock (e também Billy Wilder e Preston Sturges, que ela privilegia) contemplam o abismo que a mulher representa, como traidora em potencial. Hitchcock e Cecil Beaton, que pregava o artifício como forma de chegar à verdade em suas fotos, aprofundam o olhar no complexo de Pigmalião, tratando do orgulho exagerado do artista pela mulher que criou (o James Stewart de Um Corpo Que Cai). Henry James vislumbra o terror da solidariedade entre os sexos, James (de novo) e King Vidor (de Stella Dallas) entrevêem o perigo da discriminação. E Wilder, Arthur Miller e Norman Mailer enxergam no que ela chama de "corpo incorpóreo" de Marilyn (o movimento de se desnudar para esconder) um poço profundo que abriga a personificação da nulidade e da perda total da individualidade.
O que Wendy propõe em sua análise é uma forma de unir as metades separadas, o masculino e o feminino, encontrando na arte
mas também na vida, a plenitude. Mesmo afirmando que o sexo, na arte, pode ser relevante ou não, ela optou por examinar a obra masculina. Conclui que as obras de arte dos homens são de alguma forma diferentes das de seus semelhantes femininos, mas se o gênero é importante para o artista não é para o leitor ou espectador, que pode cruzar fronteiras e tornar-se macho e fêmea ao usufruir a obra. Embora afirme isso, ela também diz que não é verdade em todos os casos. E cita Shakespeare, cuja produção é resultado de um ego composto de partes igualmente masculinas e femininas. Seu livro, embora em menor grau que o de Camille, também é fascinante.