Paulo Polzonoff Jr
De Curitiba
Especial para a Folha
Como não poderia deixar de ser, Bach se impôs com toda a sua força no concerto da Camerata Antíqua, na sexta-feira, na Catedral Basílica Nossa Senhora da Luz, em Curitiba. A ‘‘Missa em Si Menor’’, que será reapresentada hoje, apesar de carregar em si toda a liturgia de um ritual religioso, sobrepõe-se musicalmente até ao mais incrédulo dos homens. Não há latim que resista ao poder dos violinos e dos metais no Credo.
Como não poderia deixar de ser, o clima era de espiritualidade na Catedral. Reverência também, mas essencialmente espiritualidade. Não adiantaram os avisos de que se tratava de apenas um concerto. A ‘‘Missa em Si Menor’’ tem algo mais do que um simples exemplar de música barroca. As enormes cúpulas da catedral ajudaram a criar um clima místico em torno da apresentação, que deixou os ouvintes extasiados daquilo que evidentemente não entendiam.
Como não poderia deixar de ser, houve quem perguntasse em que língua se estava cantando.
Como não poderia deixar de ser, quem nos conduziu primeiro à penitência do Kyrie, depois ao júbilo do Glória, foi o incessante cravo magistralmente dedilhado por Ingrid Seraphim, que não é à toa que tem o anjo no nome. Apesar da pequenez do cravo frente ao fulgor dos metais ou ao gemido fremente dos violinos, Ingrid não deixou dúvidas quanto ao poder deste instrumento algo obscuro, de som exótico aos ouvidos contemporâneos, criado, ao que parece, especialmente para surpreender.
Como não poderia deixar de ser, cito aqui os violinos. Ah, os violinos... Os violinos são como navalhas cortando o ar e fazendo verter o sangue do compositor que inunda o palco e nos faz ponderar sobre o prazer de se ver afogado e, num átimo, no paraíso.
Como não poderia deixar de ser, a Camerata Antíqua de Curitiba mostrou-se apta a executar esta que é considerada a mais monumental das obras musicais já criadas. Num sinal evidente de maturidade, em nenhum momento hesitou ao deparar-se com a obra-prima do maior dos compositores. Roberto de Regina regeu-a com evidente emoção. Na platéia, sabia-se que se estava presenciando um fato raro na nossa sofrível música erudita, afinal, não é sempre que se pode ver Bach esmiuçado de forma tão espetacular por uma orquestra nacional.
Como não poderia deixar de ser, houve senões. A acústica da Catedral, se por um lado ajudou a criar um clima de inegável espiritualidade, por outro lado acentuava os graves tornando-os uma massa amorfa de vozes que não se definiam. Além disso, exigiu esforço extra dos solistas, que cantaram com evidente dificuldade para a multidão que se aglomerou pelos corredores e paredes do templo.
Como não poderia deixar de ser, o público deu um show à parte. Se por um lado mostrou inusitado interesse pela música erudita, por outro demonstrou mais uma vez não estar acostumado à austeridade que este tipo de apresentação requer. Não faltaram os burburinhos de quem de uma hora para outra tornou-se expert em Bach e resolveu mostrar todo o seu conhecimento ao espectador do lado, nem o balançar de cabeça, como quem escuta uma música composta para a dança. Houve ainda quem caísse de sono pelos corredores (crianças, em sua maioria) e aqueles que fechavam os olhos para melhor compreender a música, desconhecendo o fato de música erudita ter sido composta para ser também vista, num tempo em que não havia gravações.
Como não poderia deixar de ser, o superultramoderno sino da Catedral Basílica ecoou na hora errada - computadores são indiferentes a Bach.
Como não poderia deixar de ser, foi.

mockup