Paulo Polzonoff Jr.
De Curitiba
Especial para a Folha
O maestro Roberto de Regina fala à Folha sobre ‘‘Missa em Si Menor’’, considerada uma obra difícil de Bach, que foi escolhida para marcar as comemorações de aniversário da Camerata Antíqua
A ‘‘Missa em Si Menor’’, considerada por muitos a obra-prima do genial Johann Sebastian Bach, terá duas apresentações em Curitiba. A primeira acontece hoje, na Catedral Basílica Nossa Senhora da Luz, às 20h30, e a outra na segunda-feira, dia 18, também às 20h30, no Teatro Guaíra. Quem executa a monumental obra do compositor alemão é a Camerata Antíqua de Curitiba. O concerto faz parte das comemorações dos 25 anos da orquestra e será regido pelo maestro Roberto de Regina, regente titular da Camerata deste sua criação, em 1974.
Mesmo sendo considerada uma das maiores obras já concebidas na música, a ‘‘Missa em Si Menor’’ só teve duas apresentações no Brasil neste século. Heitor Villa-Lobos a regeu na década de 40 e Robert Shaw, em turnê mundial patrocinada pelo governo americano, apresentou-a na década de 60. O principal motivo de esta ser uma das obras de Bach menos executadas é sua complexa arquitetura musical, o que a torna uma obra para poucas orquestras no mundo.
Com cerca de duas horas de duração, esta montagem da ‘‘Missa em Si Menor’’ contará com 11 músicos convidados da Orquestra Sinfônica do Paraná, além dos 35 integrantes da Camerata, o coro e os solistas.
A realização dos dois concertos só foi possível com o patrocínio da Copel, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura, Lei Rouanet, e faz parte de um projeto do maestro Roberto de Regina de executar todas as maiores obras do compositor alemão até o final do ano que vem, o Ano Bach, quando serão celebrados os 250 anos de sua morte. Além da ‘‘Missa em Si Menor’’, já estão prontos a ‘‘Paixão Segundo São Mateus’’, o ‘‘Oratório de Natal’’ e os seis grandes Motetos. Todas essas peças devem ser gravadas e executadas posteriormente em turnê mundial.
O maestro Roberto de Regina deu entrevista exclusiva para a Folha sobre a apresentação da ‘‘Missa em Si Menor’’.
A ‘‘Missa em Si Menor’’ é uma das obras mais complexas da música. Como foi a decisão de executá-la?
Este é um projeto de muitos anos que vinha sendo constantemente adiado por causa do alto custo. Agora, graças a uma feliz conjuntura de 45 anos da Copel e 25 anos da Camerata, com a ajuda da senhora Ragnhild Borgomanero, o público paranaense vai ter a oportunidade de ouvir a maior obra musical do gênio humano. Além disso, só agora a Camerata tornou-se um organismo adulto, capaz de executar uma obra desta grandeza.
A primeira execução da Missa só se deu cem anos após sua conclusão. Pode-se afirmar que nunca a obra foi tocada como Bach a imaginou, uma vez que em cem anos toda a acústica dos instrumentos mudou?
A linguagem de Bach é eterna e bem delimitada. É impossível fugir muito do que está no papel. Qualquer interpretação muito livre torna-se leviana e, por outro lado, se for acadêmica demais, tira o poder da obra. Bach valorizava muito o texto e traduzia isso em sua música. Uma compreensão do texto permite uma execução musical muito próxima do original. Além do mais, Bach não se preocupava exatamente com os instrumentos usados na execução de suas composições. Há algumas obras para as quais ele sequer especificou que instrumento deveria ser usado.
Há quanto tempo a Camerata está trabalhando na Missa?
A Camerata teve muitos compromissos este ano e o trabalho sobre a Missa se deu em tempo recorde. Cada uma das partes, orquestra, coro e solistas, trabalhou separado, o que dinamizou o trabalho.
Qual a diferença entre reger a Missa na Catedral e no Teatro Guaíra?
A Catedral, quando está vazia, reverbera muito e a ‘‘Missa em Si Menor’’ é uma verdadeira teia musical, cheia de detalhes que não podem ser perdidos. Quando cheia, a reverberação diminui e a acústica se torna quase perfeita. Além disso, trata-se de uma missa, e a Catedral é um lugar cheio de signos. Já o Teatro Guaíra tem uma acústica melhor. Vale a pena notar que Bach nunca escreveu a ‘‘Missa em Si Menor’’ para ser executada em culto. Trata-se, essencialmente, de um concerto.
Há algum projeto de a Camerata vir a gravar a obra?
Há um projeto muito ambicioso de se levar ao público todas as grandes obras de Bach. E é claro que se deve registrar tudo isso, até como um atestado da maturidade da Camerata.
O senhor escreveu que a montagem da Missa demonstrava toda a maturidade da Camerata e que também serviria, numa possível turnê internacional, para mostrar que nosso país não é só frevo e maracatu em matéria de música. Não é um tanto perigoso afirmar isso? O senhor não tem medo de ser tachado de elitista e preconceituoso?
O europeu em geral tem uma idéia muito pobre do Brasil porque nós só exportamos, com o aval das autoridades, samba, futebol, mulatas, frevo e maracatu. Quando um grupo de música erudita como a Camerata vai se apresentar no exterior, invariavelmente sofre pressão para executar o exótico. Mas nós não somos só exotismo. Eu gostaria, como brasileiro, de mostrar que também somos capaz de engrandecer a música. Porque Bach não pertence à Alemanha, à Europa. Bach é universal.
Quais são os próximos projetos da Camerata?
O ano que vem é o ano de Bach. Logicamente que o projeto é fazer uma ‘‘Maratona Bach’’, com as principais obras do compositor, como a ‘‘Paixão Segundo São Mateus’’ e o ciclo de Motetos. E ainda há um programa de música brasileira intitulado ‘‘300 de Música Brasileira’’, com músicas barrocas, clássicas e contemporâneas. E gravar tudo isso, claro.

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