De repente virou moda - esquerda, direita, centro e curiosos em geral - desancar o cinema documental sempre incendiário e interessante de Michael Moore. Depois de esquadrinhar o mapa armamentista nos Estados Unidos e atestar suas sangrentas consequências em ''Tiros em Columbine'', e após colocar o rei Bush nu diante do país paranóico às voltas com o terrorismo em ''Fahrenheit 11 de Setembro'', o bonachão Moore está de volta. O foco desta vez é o bem-estar (?) do cidadão estadunidense, apanhado no contrapé de um sistema sanitário perverso. O tema está em ''S.O.S. Saúde'', em lançamento a partir de hoje no circuito local (veja a programação de cinema na página 2).
É difícil classificar ''S.O.S. Saúde'' apenas como documentário-denúncia quando aquilo que narra já é bastante conhecido. O alto custo da assistência média e os abusos das seguradoras nos EUA já foram bem explorados pela mídia. O que Michael Moore aporta é o sentido de indignação que o distingue de muitos jornalistas, e uma contundência na exposição que não se encontra nos estudos acadêmicos a respeito dessa situação de abuso e desrespeito diante da vida, aliás o bem mais precioso do consumidor. Em diversas sequências, como bom populista, o cineasta é tão impetuoso que municia seus opositores; ele resiste em ceder o pódio a outros oradores e recorre à metáfora fácil para desenvolver suas idéias.
Moore realiza documentários cada vez mais eficazes e divertidos, ao mesmo tempo em que se converte em consumado artista da provocação - seu mais recente título, inédito no Brasil, é ''Michael Moore Uprising'', espécie de continuação de ''Fahrenheit 9/11''. De caso pensado e portanto em sã consciência, ele sabe que falta maior profundidade a seus filmes para lidar com temas tão complexos como a saúde do cidadão estadunidense. Mas suas manipulações - ele é de fato um manipulador, mas absolutamente necessário... -, especialmente quando senta à mesa de montagem e obtém indiscutíveis proezas, são até muito tímidas se comparadas com a realidade que expõe e denúncia.
Repetindo uma fórmula que considera a mais eficiente para veicular suas idéias, Moore se repete em estilo. Vale dizer, o trabalho feito com textos, montagem e uso da música tornam o cinema dele quase um gênero próprio dentro do documentário. Durante a investigação que o diretor leva a cabo em ''S.O.S. Saúde'', o espectador sabe muito bem o que se coloca na tela, e também sabe que a combinação de mordacidade, certa mistificação bem-intencionada e a ostensiva provocação pode produzir um coquetel muito eficaz em termos de entretenimento, mas às vezes não muito convincente quanto a seu real impacto político.
Em pouco tempo de projeção já temos os dados demonstrados por Moore: 50 milhões de habitantes dos EUA não têm direito a benefícios de assistência médica, e os outros 250 milhões são reféns de empresas inescrupulosas e hipócritas. Os testemunhos de usuários de planos de saúde a quem foram negados benefícios e atenção e as palavras e imagens de funcionários arrependidos destas empresas armam um quadro de fato doloroso. É nestes momentos que o diretor evidencia seu talento para a denúncia, mesmo não ocultando suas lacunas quando quer dar um passo adiante na busca das causas sociais e políticas para este estado de coisas.
Exemplos desta fragilidade são os breves relatos de como um assessor de Nixon inventou uma empresa de saúde previdenciária, e das tentativas frustradas da então primeira-dama Hillary Clinton para garantir a saúde universal. Estes dois fatos não bastam para entender por que o atual sistema de saúde nos EUA apresenta o mau funcionamento que o filme demonstra. A montagem e a música que ridicularizam e simplificam o falido intento dos Clinton podem fazer rir, mas são insuficientes para desatar o emaranhado de interesses que está por trás do atual status quo.
Discutível, sem qualquer dúvida, a metodologia de Michal Moore. Talvez a acusação mais frequente, e aquela que o deixa mais vulnerável seja o simplismo com que trabalha, organiza e afinal expõe o material. Sabe-se que ele é excedente com sua (oni) presença e muitos de seus comentários. Mas não seria este simplismo e esta presença carismática oportunos e necessários para trazer o maior número de pessoas às discussões via de regra áridas, desinteressantes e burocráticas que cercam temas tão cruciais como porte de armas, terrorismo e saúde pública?

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