'CAMBAIO' EM ANDAMENTO SUAVE
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segunda-feira, 23 de julho de 2001
Nelson Sato De Londrina 
Quem viu o espetáculo Cambaio, que ficou em cartaz durante uma boa temporada em São Paulo, vai ter uma surpresa ao ouvir a versão em CD do musical concebido por Adriana e João Falcão.
Diferente do acento pop conferido às músicas no palco, as quais incursionaram inclusive pelas batidas do hip hop, o disco não foge à tradição clássica já testada em projetos anteriores do gênero por Chico Buarque e Edu Lobo.
Não por acaso, a dupla de compositores convocou o maestro Chiquinho de Moraes para assinar os arranjos orquestrais, ele que já havia trabalhado com ambos na montagem O Grande Circo Místico, de 1983. No estúdio, os dois contaram ainda com participações especiais de Gal Costa, Zizi Possi e Lenine.
Cambaio, a peça, é um estudo lírico sobre a fama e o anonimato cujo tema ronda o universo do sonho. O disco, todavia, possui autonomia de vôo com as letras de Chico e as harmonias e melodias de Edu Lobo prescindindo de qualquer referência à sua matriz teatral.
A parceria, aliás, ainda vai merecer uma caixa de CDs, tal a inspiração que já a moveu na produção sob encomenda e cuja contribuição inclui músicas para os espáculos O Corsário do Rei (de Augusto de Boal), Dança da Meia-Lua (roteiro de Ferreira Gullar) e Dr. Getúlio (Dias Gomes e Ferreira Gullar).
Em Cambaio, Chico e Edu retomam o desafio depois de 12 anos de convívio próximo mas sem compor juntos. Com exceção de duas composições instrumentais, a valsa triste Quase Memória (inspirada no romance homônimo de Carlos Heitor Cony) e o quase jazz-experimental A Fábrica, o restante do repertório compõe-se de faixas que poderiam muito bem fazer parte de qualquer álbum de canções lançado por um ou por outro.
Zizi Possi arrepia interpretando Lábia (Palavras de virar cabeça / Meu amado vai usar / Palavras como se elas fossem mãos / tantos rodeios / Pra enfim me roubar / Coisas que dele já são) e Cantiga de Acordar (Era uma ilusão / No interior / De uma outra ilusão maior). Mas são as orquestrações, com sua variedade instrumental e timbrística, que constituem o grande trunfo do CD.
O trompete de Márcio Montarroyos na faixa-título (cantada por Lenine, que assinou a direção musical na montagem), o diálogo do oboé com o fagote em Quase Memória, o cello de Jaques Morelenbaum na balançante Veneta (não incluída no espetáculo), o sax-soprano de José Canuto em Noite de Verão e a tuba de Eliezer Rodrigues marcando o compasso em A Fábrica assinalam a sofisticação e a delicadeza que Chiquinho de Moraes imprime a seus arranjos. Palmas especiais para o maestro.


