Quem viu o espetáculo ‘‘Cambaio’’, que ficou em cartaz durante uma boa temporada em São Paulo, vai ter uma surpresa ao ouvir a versão em CD do musical concebido por Adriana e João Falcão.
Diferente do acento pop conferido às músicas no palco, as quais incursionaram inclusive pelas batidas do hip hop, o disco não foge à tradição clássica já testada em projetos anteriores do gênero por Chico Buarque e Edu Lobo.
Não por acaso, a dupla de compositores convocou o maestro Chiquinho de Moraes para assinar os arranjos orquestrais, ele que já havia trabalhado com ambos na montagem ‘‘O Grande Circo Místico’’, de 1983. No estúdio, os dois contaram ainda com participações especiais de Gal Costa, Zizi Possi e Lenine.
‘‘Cambaio’’, a peça, é um estudo lírico sobre a fama e o anonimato cujo tema ronda o universo do sonho. O disco, todavia, possui autonomia de vôo com as letras de Chico e as harmonias e melodias de Edu Lobo prescindindo de qualquer referência à sua matriz teatral.
A parceria, aliás, ainda vai merecer uma caixa de CDs, tal a inspiração que já a moveu na produção sob encomenda e cuja contribuição inclui músicas para os espáculos ‘‘O Corsário do Rei’’ (de Augusto de Boal), ‘‘Dança da Meia-Lua’’ (roteiro de Ferreira Gullar) e ‘‘Dr. Getúlio’’ (Dias Gomes e Ferreira Gullar).
Em ‘‘Cambaio’’, Chico e Edu retomam o desafio depois de 12 anos de convívio próximo mas sem compor juntos. Com exceção de duas composições instrumentais, a valsa triste ‘‘Quase Memória’’ (inspirada no romance homônimo de Carlos Heitor Cony) e o quase jazz-experimental ‘‘A Fábrica’’, o restante do repertório compõe-se de faixas que poderiam muito bem fazer parte de qualquer álbum de canções lançado por um ou por outro.
Zizi Possi arrepia interpretando ‘‘Lábia’’ (‘‘Palavras de virar cabeça / Meu amado vai usar / Palavras como se elas fossem mãos / tantos rodeios / Pra enfim me roubar / Coisas que dele já são’’) e ‘‘Cantiga de Acordar’’ (‘‘Era uma ilusão / No interior / De uma outra ilusão maior’’). Mas são as orquestrações, com sua variedade instrumental e timbrística, que constituem o grande trunfo do CD.
O trompete de Márcio Montarroyos na faixa-título (cantada por Lenine, que assinou a direção musical na montagem), o diálogo do oboé com o fagote em ‘‘Quase Memória’’, o cello de Jaques Morelenbaum na balançante ‘‘Veneta’’ (não incluída no espetáculo), o sax-soprano de José Canuto em ‘‘Noite de Verão’’ e a tuba de Eliezer Rodrigues marcando o compasso em ‘‘A Fábrica’’ assinalam a sofisticação e a delicadeza que Chiquinho de Moraes imprime a seus arranjos. Palmas especiais para o maestro.

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