Ele já foi mocinho, vilão, recatado, namorador e assassino. Aos 73 anos, o ator Francisco Cuoco conserva fôlego e animação capazes de alçar muitos galãs da atual safra ao segundo plano. O ator, cujos recentes trabalhos foram a minissérie ''Amazônia'', na TV Globo, e a peça ''O Último Bolero'', é versatilidade à toda prova. ''Estou sempre aberto a novos trabalhos'', disse ele, antes de participar em Londrina na última sexta-feira de uma homenagem para as mães, no Colégio Maxi.

Cuoco distribuiu autógrafos, tirou fotos com as fãs e despertou reações diversas: entre as crianças, era ''o tio da Bel'', em alusão ao milionário Omar Pasquim, ao qual deu vida no folhetim ''Cobras & Lagartos''. Entre a ala mais velha, acionou o imaginário como o intérprete de Carlão na novela ''Pecado Capital'', de 1975. Confira a íntegra da entrevista com o ator.

FOLHA2- Depois de 50 anos de trabalho, o Francisco Cuoco é um ator que tem personagens favoritos em sua trajetória?
Cuoco - Não. Sempre faço a analogia: o ator é como um escultor com a mão na massa que não sabe exatamente o que vai fazer, mas está disposto a criar uma cara feia ou bonita. Essa preparação vem da Escola de Arte Dramática. Lá, aprendemos que o ser humano pode ser bom ou muito canalha, negativo. O que posso citar, como personagens que sempre vêm à cabeça das pessoas, são o Cristiano Vilhena, de ''Selva de Pedra'', o Carlão, de ''Pecado Capital'' e o Herculano Quintanilha, de ''O Astro''.

Repetiria algum papel?
Não. Sou um ator sempre em busca de novos desafios.

O senhor afirmou recentemente estar cansado da TV. Está cansado, de fato, da mesma TV que o fez galã?
Isso não passa de um desabafo porque a televisão é muito ágil e não tem como ser modificada em sua linguagem. Temos que dar espaço aos comerciais de sabonete, carros. Então, às vezes você fica cansado porque, nessa linguagem industrial, não há como ter aspirações artísticas mais apuradas, a serem desenvolvidas com mais tempo.

Isso gera um conformismo?
Com certeza. Como não tenho tempo para a síntese, na TV, se faço de dez a 15 cenas e saio, após um dia de gravação, com duas ou três bem resolvidas, considero um lucro. Com o tempo, aprendi que, em se tratando da TV, não adianta adotar o método purista e artesanal. Isso fica para o teatro.

A TV está piorando a cada, dia, então?
Não sei se está piorando. Alguns trabalhos, no passado, eram bem ou mau-sucedidos. De repente, se você pega uma questão de Ibope negativo, isso contamina um pouco o elenco, diretor e a própria emissora, que precisa se colocar, criando um clima difícil, pelas pressões envolvidas.

Acredita que há uma solução para essa oscilação?
Não. A TV é como a vida, há momentos em que você acerta, há aqueles em que erra. Ciente disso, a TV insiste em coisas que não vão tão bem porque há um dever quase que cívico de se terminar uma obra.


A peça ''O Último Bolero'', recentemente encenada em turnês, país afora, marcou sua volta, de vez, ao teatro?
Gostaria que sim, pela importância educativa e cultural do teatro. Infelizmente, no Brasil paga-se um alto preço para circular com o teatro.

Recentemente, o senhor deu vida ao Rei Herodes, em ''A Paixão de Cristo''. Como é sua relação com Deus?
Vinculo o nome de Deus a luz e oportunidades em minha vida. Pelo menos por duas vezes em minha vida tive que passar por corredores muito escuros e é graças a essa luz que segui adiante.

Teme a velhice? Como é, para o senhor, envelhecer no Brasil?
Nem um pouco. Creio que envelhecer no Brasil é como em qualquer lugar do mundo. Em meu caso, sempre haverá um bom personagem para um velho ator.


Já disse ''não'' a algum personagem, por fugir de seu estereótipo?
Nunca, sempre se pode resolver um personagem se houver entrega, busca e criatividade.

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