Camaleão pop
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 13 de julho de 1998
Rodrigo Teixeira Cult Press 
Lenny Kravitz fez uma verdadeira colagem de estilos sonoros em seu novo CD. O disco 5, recém-lançado pela Virgin, mostra o instrumentista americano sob forte influência de levadas do hip-hop, da cadência lenta do funk e da sonoridade pesada da música techno. Lenny mostra um lado mais eclético no novo álbum, ao contrário dos quatro CDs anteriores, em que tentou reinventar o rock básico germinado na década de 50. Agora o cantor busca recriar o próprio som. Para isso, mistura timbres de instrumentos, como guitarras Gibson e órgãos minimoog, muito usados nos anos 70 por bandas como Led Zeppelin e Deep Purple, com o que há de mais moderno em bateria e percussão eletrônicas.
O cantor, que é também produtor, investe no experimentalismo de métodos de gravação. Por isso, nos longos oito meses que levou para gravar o disco, Lenny recrutou o lendário engenheiro de som Terry Manning, que já havia trabalhado com Al Green, ZZ Top, Led Zeppelin e Staple Singers. Nos seus trabalhos anteriores, o cantor não abria mão de seguir o método de gravação tradicional de jazz, em que todos os músicos gravavam ao mesmo tempo. Desta vez, Lenny gravou instrumento por instrumento separadamente e abraçou a alta tecnologia. O resultado é um verdadeiro petardo sonoro, sem perder o clima das velhas jam sessions.
Mas acima de métodos de gravação e timbres sonoros está o talento latente de Lenny. Ele canta com perfeição e mostra uma ótima extensão vocal, atingindo notas graves e agudas com facilidade, e ainda toca a maioria dos instrumentos nas 13 faixas do CD. Além de instrumentos de cordas, como violão, guitarra e baixo, o músico passeia com desenvoltura pela bateria, piano, teclado, sintetizador e ainda improvisa percussões com folhas de lixa e garrafas de cervejas Heineken. Para a execução exata dos instrumentos, Lenny trabalhou em média 16 horas por dia nos estúdios de Nova York e nas Bahamas, onde foi gravado o disco.
O empenho valeu a pena. O CD mostra um Lenny menos virtuose e mais melódico que nos discos anteriores. Enquanto usava várias notas nos solos de guitarra antigamente, em 5 o cantor procura captar a melodia de cada nota. E os convidados de Lenny não deixam o nível imprimido pelo cantor cair. O guitarrista Craig Ross, que trabalha com Lenny desde o primeiro disco, Let Love Rule, de 1989, faz solos demolidores nas faixas Its Your Life e Thinking Of You. Lenny também abre mais espaço para a seção de metais, composta por Michael Hunter e Harold Tood. Mas são os vocais femininos, que o cantor utiliza pela primeira vez, que ajudam o disco soar como soul music pura.
Na verdade, Lenny recebe influência de culturas e sons diferentes, como rock, blues, funk, reggae e o jazz, desde pequeno. E esta miscelânea de referências é facilmente detectável no trabalho do cantor. Afinal, ele foi criado entre duas culturas: meio baamiano pelo lado do pai Sy Kravitz, produtor de tevê, e meio judeu por herança da mãe Roxie Roker, que era atriz. Lenny, que dedica a faixa Thinking of You à mãe já falecida, cresceu em Manhattan e no Brooklyn, em Nova York, onde ouvia muito rhythm and blues nas ruas. Ao mudar-se para Los Angeles ainda adolescente, cantou com o grupo California Boys Choir e gravou com o maestro israelense Zubin Mehta. Influências bem diferentes que fazem parte do caldeirão sonoro de Lenny.
Há três anos sem lançar nenhum trabalho - o último foi Circus - Lenny Kravitz parece ter deixado o lado profissional de cumprir um contrato com a gravadora para voltar a fazer música novamente como se fosse um disco de estréia. Com a diferença que as composições agora estão mais bem elaboradas e distintas entre si. Ao mesmo tempo que destrincha canções funk que poderiam ter saído do forno de James Brown, Lenny compõe baladas que não fazem feio se comparadas às músicas de John Lennon. O cantor é um curinga da música pop mundial e em 5 ele prova que está cada vez mais auto-suficiente.


