Calmas e claras reflexões
PUBLICAÇÃO
domingo, 05 de abril de 1998
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
Ilustração A vida pode ser descrita como um floresta a ser percorrida até seu final, ou seja, a morte. Uma floresta que até pode assumir a imagem de um extasiante paraíso, com belezas detalhadamente sedutoras. Mas como sabemos, ou deveríamos saber, atravessar uma floresta não é o mesmo que admirar fotografias de suas belezas naturais. Há belezas aterradoras, mas também há uma legião de mosquitos, pernilongos, insetos infinitos, cobras, sede, fome, terrenos acidentados, chuvas contínuas, mormaço extenuante, enfim, uma série de componentes que formam a existência da floresta.
A verdade, dentro de sua intrínseca relatividade, reside no fato de que a vida não é a floresta em si, mas sim nossa travessia através dela. A vida num sentido mais amplo pode ser a floresta, mas cada vida é o processo de caminhar através dela. Utilizando um dos ditados mais populares do mundo, a única certeza da vida é a morte. Ou seja, caminhamos para encontrar a morte. Pode-se encarar este fato inegável como uma fatalidade trágica e dolorosamente triste. Mas aquilo que pensamos, seja sobre a vida ou sobre a morte, não altera o fato, apenas determina relação que estabelecemos com ele.
Refletir sobre alguns temas que nos acompanham pelas noites da floresta é o que André Comte-Sponville realiza no livro Bom Dia, Angústia! lançado pela Editora Martins Fontes. Professor de filosofia da Universidade de Paris, Comte-Sponville investiga, com elegância e lucidez, temas como a angústia, o suicídio, o luto, a morte, a doença.
Bom Dia, Angústia! (cujo título original é Impromptus) reúne 12 artigos de Comte-Sponville publicados várias revistas francesas. Conte-Sponville escreve com a intimidade de um orador que leva em conta todo o legado da história da filosofia e ao mesmo tempo, e em igual peso, sua própria experiência em sentir a vida tanto quanto a morte. Levanta detalhes, sem o ranço acadêmico, que nos passam sorrateiramente despercebidos, reflexão sobre reflexão: A vida é curta demais para contentar-se com palavras. E difícil demais, porém, para dispensá-las.
André Comte-Sponville é autor de outro belo livro, Pequeno Tratado das Grandes Virtudes (também publicado pela Martins Fontes), onde investiga filosoficamente as grandes virtudes humana - gratidão, justiça, humildade, compaixão, amor, coragem, temperança, tolerância, boa-fé, simplicidade, generosidade, prudência, e outras.
Bom Dia, Angústia! - de André Comte-Sponville, Editora Martins Fontes, tradução de Maria Ermantina Galvão G. Pereira, 149 páginas, R$ 19,80.
Pequeno Tratado das Grandes Virtudes - de André Comte-Sponville, Editora Martins Fontes, tradução de Eduardo Brandão, 393 páginas, R$ 25,40/Livraria Rosa do Povo (fone: 043/321-5691).


