Uma combinação que não se baseia diretamente em elementos descritivos, objetivos ou psicológicos, tirando do ritmo, da melodia, da harmonia, as suas razões de agradar. Eis a arte ou ciência de combinar os sons de maneira agradável ao ouvido, a música.
Organizada ou sob o véu aparente da desordem, a música é o único sentido que une tantas pessoas distantes e desconhecidas no Colégio Mãe de Deus, a sede do 21º Festival de Música de Londrina (FML). Dos 55 cursos oferecidos na edição desse ano, 41 estão sendo ministrados no colégio, na área central de Londrina.
Três andares comportam sons, ruídos, fragmentos, compassos, tons, melodias, sussurros e olhares. Aulas que unem fãs da mesma obsessão: a expressão sonora. Uma diversidade evidente que une músicos os mais diversos em busca do aperfeiçoamento.
Musicistas como Carolina Cabrera, paraguaia de 18 anos, que veio de Assunção para aprender mais sobre clarinete. Ela está pela primeira vez em Londrina, mas já conhecia o Brasil – participou de um festival em Cascavel. Mas como de tão longe ela ficou sabendo do FML? ‘‘Assisti a um show do Quarteto de Cordas de Curitiba, entrei em contato com uma contrabaixista e soube do Festival’’. Carolina toca desde os 11 anos e está participando do curso com o mestre José Botelho. Ela não veio sozinha, está acompanhada de três amigas.
Carolina caminha para a profissionalização – faz parte da Orquestra Juvenil do Paraguai, há quatro anos. Gosta do clarinete por ser um instrumento complicado, que emite um som agradável. ‘‘No Paraguai, muitas pessoas estão procurando o instrumento. Mais homens do que mulheres’’, observa.
De longe veio também o músico norte-americano Mark Williams, simpático entusiasta de um instrumento pouco conhecido pelo público, mas de sonoridade singular – o fagote. William está realizando um de seus sonhos – ter aulas com um dos maiores fagotistas do mundo, a lenda francesa Noel Devos. O mestre está em Londrina e ministra um curso para quatro felizardos que tem a rara oportunidade de aprender com um homem que já tocou para Villa-Lobos. ‘‘Devos nem precisaria mais dar aula, não precisa de mais nada. Já fez tudo’’, elogia o aluno, reverenciando a qualidade inconteste de seu mestre.
Williams também não é qualquer um. O americano de 36 anos, fanático por música brasileira, já completou seu doutorado pela Michigan State University. Entre os compositores brasileiros, prefere o ‘‘gênio da humanidade’’ Heitor Villa-Lobos (como definiu Guinga, um dia desses), Guerra-Peixe e Francisco Mignone. Mignone, aliás, tem uma importância especial para Williams, pois foi o compositor que criou 16 valsas especiais para o fagote. ‘‘Suas músicas são ricas em uma melodia especialmente brasileira’’. Williams reforça a tese defendida por Guinga em sua palestra em Londrina – a música brasileira tem seu reconhecimento quando se pauta pelo Brasil e não tenta apenas imitar o que dá certo lá fora. É a terceira vez que o músico americano está em Londrina e não esconde a sua satisfação: ‘‘Todos aqui buscam o estudo da música, é um lugar adorável’’.
Atento para a fala de Williams, está um pequeno garoto de 9 anos, natural de Campinas (SP). É Henrique do Amaral Goldemberg, preso a cada diálogo da reportagem com o americano. É a primeira vez que Henrique vem ao FML, mas sua intimidade com o violino é de longa data. ‘‘Minha mãe toca piano e meu pai, alguns instrumentos de sopro’’. Henrique já sabe o que pretende: ‘‘Quero ser maestro’’. Sua professora de violino, Shinobu Saito, conta que ele já regeu os outros alunos. Shinobu aplica o método Suzuki, em que o ensino se fundamenta em técnicas da língua materna. Crianças aprendem a tocar seguindo as orientações de uma professora, que as estimula a corrigir os seus próprios erros. Shinobu ministra esse curso no FML desde 1984, propagando um método criado há cerca de 60 anos.
Mais nova ainda que Henrique é Gabriela Macedo Mafra, de quatro anos. Ela também estuda violino com a professora Shinobu. Dedica-se ao instrumento há um ano. A música está na família – a mãe toca piano; o pai, violoncelo; e sua irmã, violino. Uma de suas companheiras na aula de violino é Maria Gabriela, de 2 anos. No dia que a reportagem esteve no colégio ela não quis tocar, só queria dançar e seguir o ritmo de suas companheiras. Tímida e presa a um universo próprio, ela não saía da aula por nada, não se separando do violino. Mais uma paixão que não se expressa por palavras.

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