Antônio Mariano Júnior
Enviado especial a Ilhabela
Os aplausos mais calorososos estavam, de fato, reservados a Milton Nascimento. Mas o público - cerca de 700 pessoas, de acordo com a organização - recebeu com bastante entusiasmo o compositor e arranjador Wagner Tiso e seus outros dois convidados - o harpista suiço Andreas Vollenweider e o pianista norte-americano Cliff Korman, no primeiro dia do ‘‘1º Festival de Verão de Ilhabela - Encontro Internacional de MPB’’. Foi anteontem à noite, em Ilhabela, litoral norte de São Paulo, numa tenda armada na Praia de Pequeá.
Foram quase duas horas de música. E de boa música brasileira, por sinal. A apresentação tinha tudo para ser sisuda e burocrática. Porém, a interação entre artista e público pôs terra abaixo essa suposição. É certo que Milton Nascimento brilhou ao ponto de ofuscar Andreas Vollenweider que, pela primeira vez, dá o ar da graça e da harpa em terras brasileiras.
Agora, justiça seja feita: como anfitrião Wagner Tiso foi o grande responsável pelo sucesso da noitada musical graças a arranjos magníficos. Com competência e sensibilidade, ele mostrou ser possível ainda extrair emoção de canções saturadas como ‘‘Eu Sei que Vou te Amar’’ (executada com o quinteto de Cordas Tiso e Andreas Vollenweider) ou mesmo ‘‘Coração de Estudante’’ (com todos os convidados).
A genialidade do maestro acabou sendo comprovada ao redesenhar ‘‘Brasileirinho’’ (tocada com o Cliff Korman). Eis o grande momento instrumental do espetáculo. De acordo com Tiso, ele e seus convidados acabaram fazendo quatro ensaios antes de subirem ao palco pela primeira vez - o que aconteceu no dia 25, na Sala São Paulo, em São Paulo.
Seus convidados internacionais receberam as partituras por e-mail e algumas adaptações precisaram ser feitas. Por exemplo, a exclusão de Andreas Vollenweider na canção ‘‘Saudades dos Aviões da Panair’’. ‘‘Ele tentou mas por causa das limitações do seu instrumento achou melhor não tocá-la’’, justificou. Quanto ao show, Tiso era só sorrisos. ‘‘Fiquei emocionado. A gente tem sempre uma expectativa mas a platéia ficou amarrada’’- analisou. O entresomento foi tanto que cogita-se que todos devem ganhar as estradas brasileiras. Tudo vai depender do patrocínio.
Amarrados também ficaram os artistas em cena que retribuíram a gentileza do público de forma instrumental ou verbal. Um dos mais animados era o pianista Cliff Korman que há anos demostra carinho especial pela música brasileira (ao ponto de vir o Brasil, através de uma bolsa de estudo, analisar as afinidades entre o jazz e choro). ‘‘Eu me sinto bem com o balanço da música brasileira porque é ritmicamente feliz, disse ele. ‘‘Mas é preciso muito tempo para se conhecer a MPB porque ela não é só Bossa Nova’’ - complementou.
Já Andreas Vollenweider preferiu o palco para dizer o quanto estava satisfeito por fazer parte da trupe. ‘‘É maravilhoso estar aqui. Pela primeira vez toco músicas de outros compositores e estou feliz por estar ao lado de novos e velhos amigos’’, disse ele, considerado um dos pais do new-age.
A grande estrela da noite, Milton Nascimento, acabou utilizando o mesmo espaço para se comunicar já que foi o único que se recusou a falar pelo menos um ‘‘boa noite’’ à imprensa. O cantor e compositor mineiro entrou em cena quase uma hora depois de Wagner Tiso ter iniciado o show. E, como era de se esperar, foi ovacionado.
Milton cantou nove músicas, entre elas clássicos do seu cancioneiro como ‘‘ Nada Será Como Antes’’ e ‘‘ Fé Cega Faca Amolada’’. No entanto foi com a bela ‘‘A Cor do Amor’’, com a qual inaugurou parceria com Andreas Vollenweider, que ele arrebatou a todos. A canção - com letra dele - está incluída no mais recente disco do harpista suiço, teve direito a bis.
Mesmo com a primeira interpretação irretocável, Milton achou por bem repeti-la por um motivo muito especial: o seu retorno de ouvido estava pifado. ‘‘Nos meus tempos de crooner não tinha nada disso e mesmo assim a coisa saia’’, disse ele arrancando mais aplausos do público.
Problemas técnicos à parte, o fato é que Milton Nascimento encantou fãs mas era impossível não perceber que sua voz, ainda bela é bom que se frise, não estava com toda plenitude. Mesmo utilizando os famosos falsetes, o cantor acabou utilizando muito mais os registros médios e graves. Detalhes, detalhes...
O importante mesmo é que todos os que assistiram à apresentação de anteontem saíram satisfeitos. E isso é bom. Sinal de que o 1º Festival de Verão de Ilhabela - Encontro Interncional de MPB’’ começou em grande estilo.
O evento tem o patrocínio do Banco do Brasil e da Secretaria de Cultura do estado de São Paulo.
O jornalista Antônio Mariano Júnior viajou a Ilhabela a convite da organização do festival.Dois brasileiros, um suiço e um norte-americano brilham na abertura do Festival de Ilhabela
DivulgaçãoDa esquerda para a direita, Wagner Tiso, Milton Nascimento, Cliff Korman e Andreas Vollenweider na noite de anteontem em Ilhabela: show reuniu clássicos da MPB