Calçadão Zen
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 16 de setembro de 2008
Mateus Patrocínio de Oliveira 
Caminhar no Calçadão de Londrina, pelo menos para mim, sempre pode trazer uma nova experiência e é um aprendizado construtivo. Talvez eu seja um dos poucos que ainda conseguem manter um olhar contemplativo ao trafegar por ali pelo simples fato de insistir em manter meus pés numa velocidade abaixo da especificada pela ''Normativa do Progresso'' ou algo que o valha. A vida é realmente veloz! Certa feita me ocorreu de encontrar por ali um amigo que há muito não via e lhe perguntar como estava correndo a sua vida. Não, ele não teve tempo de me responder. Tudo bem: vivendo e aprendendo a lidar com o mundo que nos permeia.
Entendo as pessoas que andam assim, apressadas. Tento entender, pelo menos. Todos têm suas obrigações. Eu mesmo as tenho e escrevo estas linhas me baseando no que observo enquanto me dirijo para um ou outro compromisso. Não tem jeito: a mania de olhar ao redor é mais forte do que a pressa.
Paro numa daquelas lanchonetes e peço uma cerveja. Nenhum compromisso naquela tarde de sexta-feira. Encho o copo e começo a pensar nas pessoas que correm enquanto eu as observo: o que pensam enquanto passam por ali? Será que elas me observam também? Acho que não. Talvez sejam só aquelas pessoas da sala de jantar dos Mutantes (sim, era o que estava ouvindo naquele instante). Mesmo assim gostaria de saber o que elas pensam a meu respeito, se é que pensam. Melhor não: consumo de álcool às três horas da tarde de sexta-feira não é visto com bons olhos. Paciência.
Anos de observação nas lanchonetes do Calçadão me ensinaram que, se em meia hora não aparecer nenhum conhecido para me acompanhar é porque realmente há algo errado no mundo. Mas o quê? Começo a buscar uma resposta mas meus pensamentos logo se confundem com o barulho de uma corneta tocada por um senhor trajando terno, gravata e bíblia que, com sua voz estentórea gritava para quem quisesse ou não conseguisse deixar de ouvir coisas do tipo: ''O fim está próximo'', ''Arrependei-vos pois o Reino dos Céus está chegando'' ou ainda ''Jesus está voltando''. O homem se afasta a passos lentos levando seu discurso urgente a outros lugares. Discurso urgente e passos lentos: um tanto quanto contraditório, não? Não importa. Começo a pensar na proximidade do fim: será o fim uma espécie de combustível que impulsiona os motores humanos que contemplo nas tardes de ócio do Calçadão? Talvez. Mas que fim é este? Fim do mundo? Fim da vida? Fim de mês? Fim do dia? Muito provável que na pressa das pessoas se encerre o temor de todos esses ''fins''. Talvez até exista, no recôndito do ser deste incrédulo que vos escreve, um pouco desse medo. Talvez.
Peço mais uma cerveja. Prefiro não pensar no fim do mundo. Quanto ao fim da vida, do mês e do dia gostaria de dizer aos meus inócuos transeuntes que: 1- Não há quem escape da morte; 2- Pouquíssimos escapam do terror do fim de mês e; 3- Amanhã começa tudo de novo, na mesma correria. Talvez eu ainda diga isso a eles. Por que não gritar minhas verdades como aquele homem gritou as dele? Depois de mais umas cervejas, quem sabe.
MATEUS PATROCÍNIO DE OLIVEIRA é músico
Crônicas é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 50 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato e foto para [email protected].


