A maestria musical de Chico Buarque e Ruy Guerra ganha reverência no 21º Festival de Música de Londrina. A comédia e drama musical ‘‘Calabar, o Elogio da Traição’’ será apresentada hoje, no Teatro Marista, às 20h30. A diretora Regina Lucatto redesenhou dramaturgicamente o espetáculo e preservou as 14 músicas do original. Com a adaptação, a diretora deixou algo além do perfume musical de Chico Buarque, evidenciando trechos em que é possível conhecer a carpintaria dramatúrgica característica das peças do genial compositor.
Ambientado no Brasil de 1635, período da invasão holandesa em terras brasileiras, ‘‘Calabar’’ conta a história de um personagem polêmico. Domingos Fernandes Calabar, mestiço bom de briga, namorado de Bárbara, o mais genuíno retrato da mistura brasileira. A peça incide o foco na discussão sobre o comportamento desse hábil guerrilheiro. Seria ele um traidor, um patriota ou um desertor? Em 1632, ele desertou não se sabe se por dinheiro ou pela constatação do espírito progressista dos holandeses, percebendo o atrasado dos portugueses.
Não há registros se ele morreu garroteado ou no patíbulo (local onde os condenados sofrem a pena capital, forca, guilhotina ou decapitação). Seu corpo foi esquartejado e exposto em varas, três dias após a capitulação holandesa em Porto Calvo. É esse episódio da história do Brasil que é retratado. Numa sacada dos autores, o personagem-título aparece apenas na penumbra, numa única cena. Cabe ao público construir a imagem de Calabar.
Regina Lucatto é integrante do já lendário grupo vocal ‘‘Garganta Profunda’’ há 15 anos, além de ser docente da Faculdade da Cidade do Rio de Janeiro e atua como regente de coral em empresas. Ela realizou anteriormente a montagem para cantores, nesses mesmos moldes, de dois outros musicais de Chico Buarque: ‘‘Gota D’Água’’ e ‘‘Ópera do Malandro’’. A concepção de ‘‘Calabar’’ para o Festival de Música de Londrina teve que se encaixar no tempo exíguo para ensaio e apresentação, apenas 10 dias. Em cena, 23 cantores e o acompanhamento do pianista curitibano Fabio Cardoso, que faz as vezes de uma orquestra e sublinha melodicamente o texto.
A concepção cênica enxuta tem apenas uma mesa, que serve para um banquete e missa, e poucos elementos de cena. O primeiro ato dessa montagem apresenta o domínio português, com Matias de Albuquerque, e o segundo mostra a presença do holandês Maurício de Nassau. O tratamento musical assinado por Regina Lucatto se aproxima ao original de Chico, com a maioria das músicas cantadas em solo, com exceção da canção ‘‘Você Vai Me Seguir’’, em que foi costurado musicalmente para coral pela própria diretora.
‘‘Calabar, O Elogio da Traição’’ foi escrito em 1973. Na época, a censura massacrou o pedido de liberação, que embolorou nos porões da ditadura em Brasília até 1980. A primeira montagem contou com os nomes de Tetê Medina e Betty Faria, encabeçando o elenco. Chico Buarque assinou os musicais ‘‘Gota D‘Água’’ (juntamente com Paulo Pontes); ‘‘Ópera do Malandro‘‘, ‘‘Roda-Viva’’, além de estabelecer parceria com Edu Lobo nas músicas para o balé ‘‘O Grande Circo Místico’’ e no espetáculo ‘‘Cambaio’’, de João Falcão e Adriana Falcão. Mas foi em ‘‘Calabar’’ que ele conseguiu reunir o maior número de músicas com vida própria fora da ribalta. Das 14 músicas, pelo menos sete podem ser cantaroladas até hoje, como ‘‘Cala a Boca Bárbara’’, ‘‘Bárbara’’, ‘‘Fado Tropical’’, ‘‘Anna de Amsterdam’’, ‘‘Tatuagem’’, ‘‘Você Vai Me Seguir’’ e ‘‘Não Existe Pecado ao Sul do Equador’’. Todas podem ser apreciadas hoje com um elenco de cantores jovens e promissores.
• ‘‘Calabar’’, adaptação da obra musical de Chico Buarque e Ruy Guerra, com alunos do 21º Festival de Música de Londrina, direção de Regina Lucatto. Hoje às 20h30, no Teatro Marista (Rua Cristiano Machado, 241). Ingressos: R$ 3,00 e R$ 1,50 (estudantes, idosos com mais de 65 anos e funcionários da Prefeitura Municipal de Londrina e da Universidade Estadual de Londrina).

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