Caixa com sete CDs lembra o genial Villa-Lobos
PUBLICAÇÃO
domingo, 27 de dezembro de 1998
Carlos Haag 
Os números assustam. Das 2 mil peças musicais que escreveu, Heitor Villa-Lobos, que era ótimo violoncelista e violonista, dedicou quase duas centenas delas a um instrumento, cuja técnica ele praticamente desconhecia: o piano. A intuição do maestro, porém, sempre funcionou melhor do que a sua racionalidade e, apesar dessa limitação, ele conseguiu extrair do instrumento todos os efeitos que desejava, na intensidade do colorido, na força dos ritmos, na imitação de sons. Mas são obras que exigem um sacerdote poderoso para que a sua mágica funcione. E ninguém revive melhor esse feitiço para teclado do que Anna Stella Schic.
Em 1979, a pianista gravou, para a Pathé-Marconi, em Paris, a integral para piano de Villa, lançada, em disco, no Brasil, pelo Estúdio Eldorado em 1981, um álbum há muito esgotado. Agora, a série está de volta: a Noble Note (Shopping Vitrine, Av. Faria Lima, 1181, sobreloja 55, telefone 011/870-9546) acaba de importar cem coleções de Villa-Lobos: LOeuvre pour Piano, uma caixa com sete CDs do selo francês Solstice, que trazem de volta ao País a genial recriação de Anna Stella.
O preço, R$ 190,00, pode parecer algo salgado neste fim de ano, mas não se engane: a coleção é um verdadeiro tesouro musicológico que justifica até mesmo chantagem com familiares para garantir a presença de uma delas embaixo da árvore de Natal, com seu nome numa etiqueta.
Antes de mais nada, pela excelência das composições, a grande maioria gravada pela primeira vez pela pianista.
Estão lá, em oito horas de boa música: as miniaturas didáticas do Guia Prático, Rudepoema, A Prole do Bebê, A Lenda do Caboclo, Ciclo Brasileiro, Cirandas, Suítes Infantis, Carnaval das Crianças, entre tantas outras. É o que é melhor: você tem a certeza de estar ouvindo Villa como ele gostaria de ser tocado, pois Anna Stella, que conviveu intimamente com o compositor, em Paris, e ganhou várias dedicatórias do músico (estreou, por exemplo, o Momoprecoce, para Piano e Orquestra, e o Ciclo Brasileiro), estudou boa parte das interpretações sob a direção do maestro.
Isso vale ouro no caso de Villa-Lobos, algo displicente (ou melhor, apressado) na escrita das partituras, nem sempre indicando tudo o que desejava e deixando ao intérprete a imensa responsabilidade de recriar a sua incrível imaginação. Stella faz isso com maestria. Dona de uma técnica impressionante, a pianista campineira reconstrói os diferentes universos sonoros (tocantes, rudes, dissonantes, dolentes) do compositor com sabedoria e intensidade na medida exata. Ouvi-la, por exemplo, em As Três Marias (escrita em 1939, a pedido de Edgard Varése) ou no Ciclo Brasileiro é entender a riqueza do colorido, a modernidade universal, mas, ainda assim, tão brasileira de Villa-Lobos. Não se perde a clareza da construção e, ao mesmo tempo, se mergulha num mar de sons, ritmos e harmonias.
Impressiona como o compositor possa ter criado tantos efeitos sem poder, efetivamente, tocá-los. O que reforça a utilidade do esforço dispendido por Anna Stella para registrar essas peças. Assim, entre 1974 e 1975, a música abandonou o piano para, antes de mais nada, reunir as partituras de Villa-Lobos, espalhadas por editoras nos EUA, França e Brasil. Para gravá-las foram mais dois anos e meio, em Paris. Mas o resultado compensou o sacrifício: em 1979, a coletânea ganhou o Diapason dOr, feito repetido quando a série foi relançada em CDs pelo selo Solstice.
Como é uma tradição em sua obra, as peças para piano do maestro têm, todas, uma personalidade muito característica, um jeito de tratar o instrumento que revela a inteligência da intuição, a capacidade de ser original em um meio que não dominava e, ao mesmo tempo, não perder de vista os ideais musicais que o acompanham em todas as suas criações. Evitando escrever música pianística, Villa-Lobos usou o teclado de forma inédita, abusando dos efeitos conseguidos com ritmos ousados, fora dos padrões tradicionais.
São sons diferentes que, mesmo assim, capturam o ouvinte em poucos compassos, levando-o, pela curiosidade do inusitado e pela força do discurso musical, a um mergulho por sua fantasia. Isso mesmo naquelas muitas composições sobre motivos infantis, uma paixão do músico, como as suítes de A Prole do Bebê. Dê-se ao luxo da coleção sem remorsos.


