Ranulfo Pedreiro
De Londrina
Houve um tempo em que a viola era tão marginalizada quanto a música que representa. Frequentemente observado com olhos preconceituosos, o instrumento é o retrato de um Brasil com mato nas entranhas, um quadro que ainda provoca vistas grossas. Entre os nomes que mais lutam para reverter essa situação, está o de Inezita Barroso. A cantora, que estudou piano clássico, fez uma opção natural pela música caipira. Aprendeu violão porque a sociedade rejeitava a mulher que tocasse viola. Aos 45 anos de carreira, ela surpreende ao reafirmar que os ventos do preconceito ainda sopram sobre a música da roça.
Acompanhada pela Orquestra de Viola Caipira de São José dos Campos, sob regência de Braz da Viola, Inezita Barroso se apresenta hoje, a partir das 20h30, no Cine-Teatro Ouro Verde, em Londrina. O show faz parte da III Londrina Mostra Folclore, realizada pela Secretaria Municipal de Cultura e Prefeitura de Londrina. O programa está dividido em três partes. A Orquestra fará a abertura para a posterior entrada de Inezita, que preparou alguns números como solista. Em seguida, a cantora e a Orquestra se apresentam juntos. Braz da Viola já avisou que o espetáculo vai contar com a turma de violeiros que participou de sua oficina, ministrada em Londrina neste mês. O repertório traz marcos da música caipira como ‘‘Tristeza do Jeca’’, ‘‘Chico Mineiro’’, ‘‘Cálix Bento’’ e ‘‘Rio de Lágrimas’’, além de ‘‘Trenzinho do Caipira’’.
O show é importante porque marca o encontro de várias gerações preocupadas com a preservação da cultura do homem do campo. A Orquestra de Viola Caipira foi formada em 1991 e reúne instrumentistas dos 7 aos 70 anos, de todas as classes sociais, além de violeiros veteranos da zona rural. São 30 integrantes que se somam à voz de Inezita na celebração da caipiragem.
‘‘Sempre defendi essa música, está no sangue. Mas sempre houve um preconceito muito forte, era feio tocar viola porque era coisa de caipira. Viola em público só fui tocar depois do violão, que era tido como coisa de vagabundo’’, recorda Inezita, em entrevista exclusiva à Folha2.
Quando abandonou a música erudita para se dedicar às cordas da viola, Inezita tomou uma decisão sem volta. ‘‘Meus dedos ficaram muito calejados, perderam sensibilidade, e não dava mais para tocar piano. Achei melhor ficar com uma coisa só’’, comenta.
A opção se tornou o principal trabalho de sua vida. ‘‘Ainda hoje existe muito preconceito, mas não dou a mínima bola, é uma batalha que está longe do reconhecimento’’, revela. Além de defender a música caipira com a própria voz, Inezita comanda desde 1980 o ‘‘Viola Minha Viola’’, programa que vai ao ar pela Rede Cultura voltado exclusivamente para a música regional. Nele, Inezita revela novos talentos, resgata aqueles que o tempo tentou apagar e reúne amigos.
‘‘Não querem saber do cheiro de mato. Temos uma riqueza enorme aqui e copiam mal copiado de fora. A música country tem seu valor, mas aqui é mal copiada e tentam nos convencer de que é o máximo. As letras de amor que estão por aí são ruins. Raul Torres e João Pacífico, por exemplo, são limpos, têm cabeça e coração’’, acrescenta.
Nesse contexto, a cantora ressalta o aparecimento de nomes como Braz da Viola, Paulo Freire, Ivan Vilela e Roberto Corrêa, que celebram a viola e a música caipira, levando-as para novas gerações. ‘‘O aparecimento dessas crianças tocando viola, principalmente na orquestra do Braz, é uma resposta, é uma beleza.’’
A utilização da viola para outros gêneros musicais – como a aproximação com o erudito feita por Roberto Corrêa – é vista com bons olhos: ‘‘A viola é um instrumento que fala e você pode tocar o que quiser, é importante mostrar que não é um pedaço de pau qualquer.’’
Inezita Barroso está preparando um disco para comemorar os 45 anos de carreira. O álbum deve sair pela gravadora CPC-Umes, de São Paulo, e vai reunir amigos arranjadores como Roberto Corrêa, Robertinho do Acordeon, Natan Marques, Francisco Araújo, Paulinho Nogueira, Téo de Barros, Araquém Peixoto e Cézar do Acordeon. O lançamento deve ocorrer até o final do ano.
Vale lembrar que a apresentação de Inezita e a Orquestra de Viola Caipira tem entrada franca sem ingressos. Ou seja, quem chegar mais cedo, garante o melhor lugar. As portas estarão abertas a partir das 19h30. O Cine-Teatro Ouro Verde fica na Rua Maranhão, 85, em Londrina.Inezita Barroso e Orquestra de Viola se apresentam hoje no Cine-Teatro Ouro Verde, em Londrina
DivulgaçãoInezita Barroso completou 45 anos de carreira sem abrir mão da cultura caipiraDivulgaçãoComandada por Braz da Viola, a Orquestra de Viola Caipira tem integrantes de todas as faixas etárias

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