CAIM E ABEL NA AMAZÔNIA
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 20 de junho de 2000
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
Há muitos romances que narram conflitos entre irmãos. Desde os tempos de Caim e Abel, ficou evidente que irmãos tanto podem se amar como se odiar. Quando se odeiam, a fúria pode assumir proporções inimagináveis e instaurar uma tragédia.
Em seu novo romance, Dois Irmãos, o escritor amazonense Milton Hatoum conta a história dos irmão gêmeos Yaqub e Omar que, após nove meses dividindo o mesmo útero, saem para o mundo inundados de um ódio recíproco. Nascem para ser, ao mesmo tempo, sujeitos e objetos de drama familiar insolúvel.
Mesmo sendo um romance de desdobramentos previsíveis, com o ódio eterno entre irmãos, o autor consegue, a cada episódio, oferecer novas situações pinceladas de nuances que conferem um elemento sedutor à narrativa. Entrando lentamente no interior das personagens, faz com que cada uma se solidifique aos olhos do leitor. Dentro de um processo sutil, o leitor pode assumir a defesa de um dos irmãos e, logo em seguida, defender o outro numa espécie de jogo imanente na relação das próprias personagens.
Filhos de imigrantes libaneses residentes em Manaus, Yaqub e Omar crescem acompanhando as transformações da cidade ao longo do século. Vivem cercados por duas culturas, a libanesa e a amazônica. Yaqub é tímido, sóbrio e sereno. Omar é o oposto ousado, tempestuoso e insensato. A mãe não esconde sua preferência por Omar, revestindo-o de uma superproteção quase doentia. O pai, para compensar a situação, assume a proteção de Yaqub. Para acentuar os conflitos familiares, a irmã caçula, Rânia, mantém uma velada relação incestuosa com Yaqub e Omar.
O conflito entre os irmãos são alimentados pela própria família. Até mesmo quando os familiares procuram amenizar a batalha, acabam por alimentá-la. No processo de Yaqub e Omar destruírem um ao outro em nome da vingança, acabam também por aniquilar a família como um todo. Não sobrará pedra sobre pedra e os problemas estarão resolvidos com a destruição completa. Ao final, todos terão fiapos de amargura presos entre os dentes.
Lançado pela Editora Companhia das Letras, Dois Irmãos é narrado por Nael, o filho da empregada da família. Com os olhos de alguém que assiste a toda dissolução familiar do lado de fora, do quartinho dos fundos, o narrador também realiza uma leitura interna dos episódios isso porque ele é fruto dos encontros sexuais dos irmãos com a empregada, uma nativa órfã.
Nascido em Manaus em 1952, Milton Hatoum possui uma trajetória pouco comum na literatura brasileira. Professor de literatura na Universidade Federal do Amazonas, publicou seu primeiro livro, Relato de um Certo Oriente, em 1989, onde também focalizava dramas familiares. A obra acabou faturando o prêmio Jabuti de melhor romance daquele ano. Desde então não publicou nenhum outro livro e agora, após onze anos de silêncio, volta com tudo em Dois Irmãos.
Dois Irmãos de Milton Hatoum, Editora Companhia das Letras, 272 páginas, R$ 24,00.


