Mais que uma coincidência. É assim que o editor-chefe da ''Cahiers du Cinéma'' abre o número de outubro da mais famosa revista de cinema do mundo. Na capa, uma foto que rodou mundo - os escombros, o pouco que restou das torres gêmeas em Nova York. Sob a foto, algumas datas, além do 11 de setembro de 2001, todas significativas: Sobibor, 14 de outubro de 1943, dia da revolta dos prisioneiros em um campo de extermínio nazista; Hiroshima, 6 de agosto de 1945, data do lançamento da primeira bomba atômica sobre o Japão; Paris, 17 de outubro de 1961, dia do massacre em uma manifestação contra a guerra na Argélia. O título geral da revista fala desses momentos - traumáticos - nos quais o cinema torna-se, literalmente, refém da História.
Claro, não há ainda um filme sobre o atentado ao World Trade Center e ao Pentágono (haverá, um dia?). Mas há sobre os outros acontecimentos. Sobre a bomba que pôs fim à 2ª Guerra Mundial existe o clássico de Alain Resnais, ''Hiroshima, Meu Amor''. René Vautier e Pierre Clément fizeram filmes sobre a questão argelina. E Claude Lanzmann, autor de Shoá, está, exatamente agora, concluindo um filme sobre o levante de Sobibor.
Dia 11 de setembro a equipe da Cahiers estava entrevistando Lanzmann. A conversa já corria havia duas horas. O telefone toca, é um amigo de Lanzmann dizendo para ele ligar a televisão e ver o que estava acontecendo nos EUA. De comum acordo com os jornalistas, a entrevista foi suspensa. Não havia clima para continuar. A conversa foi retomada dias depois, agora já sob o impacto dos acontecimentos. Então, a reportagem divide-se em um pré e um pós-11 de setembro, esta data que parece ser o divisor de águas de um século recém-inaugurado.
Assim, Lanzmann, que deveria ser a capa da revista, passou para as páginas internas. E o atentado foi para a capa. Mas com esse viés: começa, agora, a reflexão sobre o desafio de representar, em imagens, os fatos traumáticos. Este em especial, porque já em si saturado de imagens insuperáveis - como mimetizar, comentar, ou tratar de forma documental ou - pior - ficcional, esses ícones do século 21, o Boeing entrando no prédio como faca na manteiga, as pessoas se atirando do alto em desespero, as torres desabando.
Curiosamente, em uma das novas seções da revista, ''Le Cinéma Retrouvé'' (o cinema reencontrado), o personagem é Samuel Fuller, o mitológico cineasta morto em 1997. Fuller foi um dos queridinhos da Cahiers, um ''autor'', que definia a realização de um filme como uma ação num campo de batalha. Em ''Proibido'', que Fuller fez em 1958, um jovem alemão descobre o horror nazista durante o processo de Nuremberg. Fuller foi acusado de tentar atenuar a barbárie por esta cena. Defendendo-se, comentou que apenas tentava mostrar que, mesmo em um país inimigo, não existem apenas os inimigos. O editor da revista, Charles Tesson, acha que essa frase, vinda de um grande artista norte-americano, é bastante reconfortante.

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