Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
Está praticamente tudo certo. Em julho do próximo ano Paulo Betti deverá começar a rodar em Sorocaba (SP) o filme ‘‘Cafundó’’, que se passa entre 1858 e 1942, contando a história do ex-escravo João de Camargo, homem místico que cria uma religião, ergue uma igreja e vive até o fim de seus dias na certeza de ser um escolhido de Deus.
Aquilo que durante toda a vida de Betti esteve no plano imponderável do sonho, começa a se tornar realidade. Realidade ainda mais palpável desde quarta-feira passada, quando aconteceu em Sorocaba um concorrido jantar que inaugurou oficialmente o processo de ‘‘corpo-a-corpo’’ dos produtores com os empresários, para levantamento de recursos. ‘‘Cafundó’’ está orçado em quase R$ 7 milhões.
Maria Lúcia Amary, primeira-dama do município, esteve à frente da noitada. O objetivo era reunir empresários e representantes da ala mais influente da sociedade local. Os 155 lugares disponíveis no Restaurante Daniel (frequentado não só pelo ator, mas também pelo novelista Benedito Rui Barbosa, autor de ‘‘Terra Nostra’’) foram vendidos.
‘‘Esse evento é uma retribuição nossa a Paulo Betti’’, disse Maria Lúcia à Folha2. ‘‘Ele é um ator que sempre lembra de suas raízes na cidade e a contrapartida é que possamos alavancar junto aos empresários locais a parceria para esse projeto dele.’’
‘‘Cafundó’’ mescla a história sorocabana com a do personagem de João de Camargo, e, portanto, nada mais natural que o empresariado da região associar-se ao projeto, raciona a primeira-dama. No jantar de quarta-feira encontravam-se presentes representantes das multinacionais instaladas ali.
Renato Amary, o prefeito, acredita que a obra de Paulo Betti se transformará em marco cultural da cidade. Ele vê no retorno do marketing cultural um elemento decisivo. Cidade de raízes industriais, Sorocaba conta hoje com uma concentração de empresas como a Pirelli, Gatorade, Case, Faço, a japonesa YKK. ‘‘Temos centenas de indústrias que poderão estar sendo visitadas ou contatadas pelos formadores de opinião e empresários que estão aqui. Eu envidarei esforços para tentar participar na busca de recursos para que o Paulo Betti e o Gennaro (Luiz Gennaro, sócio do ator na empreitada) possam produzir esse filme’’ - disse.
Curitibano, dono da LAZ Audiovisual e produtor de ‘‘Oriundi’’, que traz no elenco Anthony Quinn e Paulo Betti (filme entra em temporada nos cinemas brasileiros em novembro), Gennaro tornou-se amigo do ator global durante essa convivência. Betti passou a ele, então, o projeto que vinha acalentando há muitos anos.
‘‘Esperamos iniciar as filmagens em julho de 2000 em Sorocaba. Mas também haverá filmagens ao longo da trilha dos tropeiros, desde Viamão (RS), passando por Santa Catarina e Paraná, até chegarmos aqui’’, disse o produtor. Ele deixou claro que ‘‘o projeto é do Paulo’’.
‘‘A empresa dele (Prole de Adão) é detentora de todos os direitos. Eu espero dar toda a logística, tanto para a captação de recursos como o modus operandi da produção e finalização’’, frisou. A fase atual é de captação de recursos, e com o fim da novela ‘‘Força de um Desejo’’, onde tinha importante participação, o ator irá se dedicar exclusivamente ao filme.
Além de artista global, Betti é também ‘‘um líder’’, na opinião de Gennaro. Esse é um detalhe que tem aberto portas. A comunidade sorocabana e da região está se mobilizando, segundo o produtor, ‘‘num patamar que nunca vi igual. Não conheço filme que esteja começando a captação com essa interatividade. A mídia tem apoiado muito – jornais, revistas, rádios e isso tudo porque o Paulo é um elemento catalisador.’’
Pessoas jurídicas, assim como físicas, estão dando seu apoio ao projeto. ‘‘A assessoria tributária que está fazendo essa captação já está num patamar razoável’’, garantiu Gennaro. ‘‘Chegamos a 10%, 15% do montante global já nesse primeiro status.’’
A importância de Paulo Betti poderá resultar na participação de alguma empresa estrangeira, com capital externo, aventa o produtor. Ainda não está nada definido, mas há conversas nesse sentido com duas empresas inglesas que têm filiais no Brasil. Uma é a UAB Films e a outra é a Lola Films, de Londres.
A discussão no momento é sobre a disponibilidade que essas indústrias têm de investir, não mediante a lei do audiovisual, mas com capital de incentivo ‘‘Eles estão interessados em fazer parte da retomada do cinema brasileiro’’, adiantou Gennaro.

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