Durante a 1ª Conferência de Cultura, em Londrina, que aconteceu de 13 a 15 de setembro, um dos setores mais articulados do encontro foi o de Patrimônio, que defendeu a tese de que no patrimônio cultural sejam incluídos, além do edificado, o patrimônio natural, documental e imaterial. A questão da memória do café foi defendida, pois na cidade há um acervo portentoso que precisa ter uma destinação correta, não podendo ficar sofrendo a ação do tempo e dependendo da iniciativa isolada de pessoas para que sobreviva.
A Folha 2 foi conferir o que existe sobre a memória do café na cidade e conversou com alguns dos idealizadores do Museu do Café, uma instituição que a cidade reivindica há tempos. Há um acervo riquíssimo, desprotegido e que está na iminência de se perder. Na Avenida do Café, em Londrina, funcionava o antigo Instituto Brasileiro do Café (IBC), hoje Decaf (Departamento do Café), sob a jurisdição do Ministério da Agricultura.
No local, de 45.212 metros quadros, existem várias edificações. A mais importante é denominada de Palácio do Café e possui 5.155 metros quadrados. Além disso, existem mais seis residências adaptadas como escritórios, juntamente com um complexo armazenador de café com alguns galpões. O prédio do Palácio do Café seria a base para o futuro Museu do Café, segundo o desejo dos idealizadores da área do Patrimônio em Londrina.
Londrina se modernizou graças à cafeicultura, como também muitas cidades surgiram no norte do Paraná. Quando o governo Fernando Collor de Mello extinguiu o IBC, em 1990, não houve preocupação com o patrimônio e documentação existente. Todo o acervo foi para Curitiba e voltou. Naquele imenso espaço perecem cerca de 15 mil caixas-arquivo, num acervo documental que marca a consagração de Londrina como a capital mundial do café e a fatídica geada de 18 de julho de 1975, que dizimou totalmente a cafeicultura paranaense até a decadência do ciclo. Nos galpões do IBC se degrada uma riqueza documental inestimável, empilhada e fora de caixas. Há uma documentação inédita que praticamente não foi aberta ao público.
''Temos documentos espalhados em todos os galpões. Em alguns armazéns têm café estocado'', constata Ângela Simões, especialista em arquivologia, funcionária da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG) e cedida para o Ministério da Agricultura. Segundo informou a especialista, os armazéns foram entregues ao Patrimônio da União. Os prédios estão depredados, armazenam documentos recolhidos pelo Arquivo Nacional. Londrina centraliza documentação de Ponta Porã (MT), São Paulo, Curitiba, Itajaí (SC), Paranaguá e Maringá. Parte significativa da história de Londrina está nessa documentação.
O maior problema enfrentado por Ângela Simões é a falta de pessoal. Além de um auxiliar, Milton Eduardo Ribeiro, ela conta com 2 estagiárias do curso de Arquivologia, trabalhando algumas horas semanais. Seriam necessários pelo menos 15 especialistas em tempo integral para sistematizar a documentação. Além do pessoal de limpeza, são necessários caixas de arquivos e computadores. Ângela conta com um computador defasado (386), desprovido de impressora, fax e internet. Calcula-se que após o tratamento arquivístico, o total de documentos ocupe 3 mil caixas-arquivo, além de uma parte microfilmada.
O prédio que abriga o acervo documental não dispõe de climatização, facilitando o ataque de insetos, principalmente as traças. Soma-se a isso, o pó que degrada o papel. É a própria Ângela Simões quem se encarrega da limpeza dos imensos barracões.
''Essa documentação não pode ir para o Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro. Essa riqueza está ligada à memória e ao resgate da cidadania'', defende. Entre os milhares de documentos existentes, pode-se pinçar processos de tentativa de impedir contrabando de café entre Foz do Iguaçu e Ponta Porã (MS). Há também o cadastro dos maiores produtores e torrefadores; o café em todas as fases; a assistência aos agricultores, pagamento de pessoal. Muitos ensacadores obtêm aposentadoria graças à essa documentação. Entre tantos papéis, ainda resistem documentos de Paranaguá da década de 30. Essa documentação poderia estar disponibilizada a pesquisadores de nível nacional e internacional.
''Cada vez que mexemos encontramos documentos mais importantes'', constata. Para Ângela Simões, a instituição mais recomendada para cuidar dessa documentação é a Universidade Estadual de Londrina, para organizar e ter a custódia desse acervo que deve ficar disponível para a comunidade.
Para o que serviria essa documentação existente no IBC? O Secretário de Cultura, Bernardo Pellegrini, constata que essa documentação é vital para a cidade. ''Se colocarmos um historiador do cotidiano de posse desse acervo, ele pode pesquisar sobre a história da região'', sugere Pellegrini. Desde o início da atual administração, a equipe de Pellegrini está investindo no Museu do Café e deseja transformar aquela área num centro cultural dinâmico. Outro ponto sugerido pelo secretário são os barracões pertencentes à família Sahão, próximos à Avenida Leste-Oeste. A Secretaria Estadual de Cultura procura um grande projeto para empreender. Um Centro Cultural do Café, seria um desses projetos.
Para Enezila de Lima, coordenadora do Centro de Documentação e Pesquisa Histórica da UEL, todo o material existente na ''massa falida'' do antigo IBC ficaria nesse Museu onde, além dos documentos, se degradam beneficiadoras de café. ''Mas é preciso ampliar o acervo, com doações de particulares. Não seria um local de memória morta, um museu contemplativo e sim um espaço atuante'', argumenta Enezila. Na concepção da professora, falta vontade política. ''Com a somatória de forças da sociedade organizada seria mais fácil'', prossegue.
O Prefeito Nedson Micheleti conversou pessoalmente com o Ministro da Agricultura, Pratini de Moraes, em Brasília, solicitando a doação do Palácio do Café, juntamente com os armazéns, ao município. Segundo Nedson, o Ministro acenou positivamente sobre a doação, caso o local pertença a sua pasta. Acontece que o espaço pertence ao Patrimônio da União e o Ministério da Agricultura apenas ocupa o local e se responsabiliza pela manutenção.

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