Caetano Veloso mostra "Livro Vivo" em São Paulo
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quarta-feira, 09 de junho de 1999
Por Beatriz Coelho Silva 
Rio, 10 (AE) - Caetano Veloso, que vai estar até domingo no Via Funchal com seu show "Livro Vivo", pode tornar-se unaminidade nacional. Ao menos, é o que se dizia na madrugada de hoje, no Rio, depois da festa que a gravadora Universal promoveu para comemorar 1 milhão de exemplares vendidos do disco "Prenda Minha".
Estava todo mundo lá: Nana Caymmi e Suzana Werner, o craque Edmundo de papo com a apresentadora Leda Nagle, Peninha e Jacques Morelembaum, Gabriel Pensador e Alexandre Pires, do Só pra Contrariar, Lulu Santos e Alcione, e muitos outros.
Na entrevista coletiva que deu antes da festa, ainda na noite de quarta-feira, ele contou que esses shows (assim como os dois do Metropolitan, no fim de semana passado) têm função dupla: comemorar o sucesso do disco e ensaiar para a turnê do mês que vem nos Estados Unidos. Não é a primeira, mas é a maior, pois percorrerá o país de costa a costa e ainda sobrarão datas para o Canadá. Isso num momento em que o tropicalismo se populariza entre os americanos e alcança um público além dos intelectuais e músicos que conquistou nos anos 80.
O show do Via Funchal mudou pouco desde a estréia de "Livro Vivo", no início do ano passado. O que muda agora é o ponto alto, quando Caetano, só com o violão, canta "Sozinho", um hit de Peninha que está onipresente nas rádios e, segundo ele mesmo, incentiva a vendagem do disco. "Eu tenho certeza de que esse disco não correria o risco de chegar a 1 milhão de exemplares vendidos, se não tivesse essa música irresistível, servindo de trilha sonora para um casal irresistível de uma novela idem (Eliseu e Márcia, em "Suave Veneno", da "TV Globo")", afirma ele. "Ao mesmo tempo, eu já tive músicas fantásticas em novelas maravilhosas e meu disco não vendeu tanto."
Além da vendagem excepcional, que lhe garantiu um disco de diamante, Caetano comemorava a comprovação prática de teses que vem defendendo desde quando ajudou a criar o tropicalismo, nos anos 60. "O que mais me emociona é saber que em 1 milhão de casas do Brasil estão ouvindo música com arranjos sofisticados como os de Jacques Morelembaum, ao lado de canções populares como a do Peninha", disse ele na entrevista e no palco. "Isso prova que o povão aprecia boa música e que canções comerciais podem ter qualidade."
Para Caetano, a idéia de que o popular e o comercial são lixo foi enterrada nos anos 60, com os Beatles, na música internacional, e o tropicalismo, no Brasil. "Eu tenho 56 anos e me lembro que, nos anos 50, o rock era considerado lixo por quem o fazia, por quem o ouvia e por quem o criticava", lembrou ele. "Hoje não se pensa mais assim e a boa vendagem de "Prenda Minha", puxada por uma canção popular e comercial como "Sozinho", prova que aquela idéia antiga não tem retorno." Da mesma forma, Caetano acha importante estar na televisão e no rádio, mesmo em programas que outras estrelas da música brasileira se recusam a fazer. "Achei ótimo estar no programa do Gugu Liberato, ao qual nunca tinha ido, e em alguns programas de rádio extremamente populares."
Para o arranjador e produtor de "Prenda Minha", Jacques Morelembaum, que trabalha com Caetano desde o show "Circuladô", de 1993, a vendagem do disco abre o caminho para uma música mais sofisticada, geralmente recusada pelas emissoras de rádio e grandes gravadoras. "A gente sabe que dar certo no mercado é ciência e loteria e, quando fiz esses arranjos, só pensei em servir à música e em preencher a vontade estética de Caetano Veloso." "Morelembaum", no entanto, deixa claro que Sozinho não teve uma nota escrita por ele. "Foi tudo idéia do Caetano."
Na verdade, a canção já existia há alguns anos e chegou a fazer algum sucesso na voz de Sandra de Sá, que lhe deu um tratamento mais suingado. Caetano pensou em incluí-la num show até que ouviu a versão de Tim Maia, que considerou definitiva. "Só me animei a cantá-la porque era muito boa, mas fiz contando essa história toda e dando mais importância à maneira como ela chegou a mim que à canção em si", contou ele.
"Tanto que, no disco "Prenda Minha", há um corte entre a primeira e a segunda vez que eu canto o refrão, que é quando eu conto a história." Sandra de Sá fez muitos elogios à versão de Caetano para a música. "O fato de cada um de nós gravar a música de um jeito só acrescenta", garante ela.
A festa de entrega do disco de diamante teve de tudo. Havia um cardápio totalmente baiano, com acarajé, moqueca de siri e bobó de camarão. Caetano levou a família e o filho do meio, Zeca, dançou o tempo todo. Além dos filhos, foram os afilhados, a escola mirim Mangueira do Amanhã e o grupo Afro-Reggae, da favela de Vigário Geral, na zona norte da cidade. Mas os melhores momentos foram quando ele ficou sozinho com o violão no palco e chamou os amigos para cantar junto.
Com Lulu Santos, cantou "Como uma Onda", pedindo desculpas por mudar a harmonia. Nana Caymmi tirou do fundo do baú o samba "Não Posso Esquecer o Adeus", que Caetano compôs no início dos anos 60. Mariza Monte sofreu para alcançar o tom de Caetano em De Noite na Cama e Alexandre Pires apresentou com ele "Desde Que o Samba É Samba", acrescido do auxílio luxuoso do pandeiro de Martinália, filha de Martinho da Vila. A noite terminou com Emílio Santiago e Caetano acompanhados por Dadi e Luiz Brasil nos violões, quando já passava muito de meia-noite. Serviço - Caetano Veloso. Amanhã e sábado, às 22 horas; domingo, às 20h30. De R$ 30,00 a R$ 100,00. Via Funchal. Rua Funchal, 65, em São Paulo, tel. (011) 866-2300. Apoio: DirecTV, WCR, Jovem Pan.


