CAETANO EM TOM ABOLICIONISTA
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quarta-feira, 13 de dezembro de 2000
Nelson Sato De Londrina 
Caetano Veloso soltou a língua outra vez. A diferença é que, agora, não esperou a recepção crítica de seu novo disco: preferiu se antecipar à imprensa divulgando uma longa entrevista na Internet na qual ataca os jornalistas da área de cultura.
O depoimento é abrasivo. Talvez, tenha mais repercussão em alguns setores do que o próprio CD, ainda que este esboçe um viés quase conceitual ao abrigar temas inspirados em uma leitura recente do compositor. Quando eu ia começar a fazer esse novo disco, eu só pensava nos sons: queria fazer experimentações com o modo de gravar a voz com percussão. Eu nem sabia que canções eu iria cantar ou compor. Mas, assim que recebi de presente o livro Minha Formação, fiquei maravilhado com Joaquim Nabuco conta ele no material promocional.
O próprio título do CD, Noites do Norte (Universal), saiu de um texto do abolicionista pernambucano. O mesmo texto que Caetano musicou e que parece orientar suas reflexões a respeito da realidade brasileira. A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil diz a frase de abertura. As duas faixas seguintes, 13 de Maio e Zumbi, giram em torno do tema.
Zumbi é do repertório antigo de Jorge Ben(jor), compositor sucessivamente regravado por Caetano e que é outro dos homenageados no disco ao lado de Raul Seixas e Micheangelo Antonioni. Desde os anos setenta, sempre gravo músicas de Jorge Ben diz ele na entrevista. Os Paralamas do Sucesso gravam, todo mundo grava. Porque ele é uma solução espetacular. Dá uma sensação de saúde cultural sem os amparos do status de uma educação de alta classe média. Não é assim. Jorge Ben não é letrado: é um grande poeta, um grande solucionador cultural, um sujeito imenso.
Numa comparação ligeira, Noites do Norte estaria musicalmente mais próximo da opacidade de Livro (o álbum de 97 que faturou o Grammy na categoria world music no começo desse ano) do que da auto-celebração de Prenda Minha (o disco ao vivo que vendeu mais de 1 milhão de cópias em 98). Nenhuma canção de apelo radiofônico, como Sozinho, foi incluída no repertório. A mais acessível, Meu Rio, é um samba-canção conduzido pelo cavaquinho de Dudu Nobre (em participação especial) e cuja letra reconstitui as lembranças do compositor da época em que morou no Rio de Janeiro quando tinha 13 anos.
O restante das músicas revela uma acentuada preocupação com os arranjos, oferecendo em contrapartida melodias tortuosas e o que tem se tornado previsível em sua obra uma evidente escassez poética. Há Tempestades Solares: Você provocou / Tempestades solares no meu coração / Com as mucosas venenosas de sua alma de mulher / Você faz o que quer / Você me exasperou /Você não sabe viver onde eu sou / Então adeus / Ou seja outra:/ Alguém que aguente o sol. Mas é a exceção que apenas confirma a indigência.
Em Zera a Reza, Caetano explora a sonoridade das palavras remetendo à fase dos anos 70 ao mesmo tempo em que sobrepõe um discurso sobre religiões numa levada de rap. Os tambores de rua da Bahia prevalecem na maioria das faixas, contrastando em algumas caso de Cantiga de Boi com os arranjos para cordas. RocknRaul foge à regra. De instrumental básico e limitado à formação guitarra-baixo-bateria, ele homenageia Raulzito abordando o desejo do artista de ser americano.No meio da letra, Caetano insere a citação E hoje olha os mano, numa alusão à mesma vontade de identificação dos rappers brasileiros.
Os nomes que eles escolhem para si são nomes em inglês, parecidos com os dos negros americanos. É imensamente saudável, porque apresenta uma vontade de discutir e problematizar o modo com que se dispõe o panorama racial no Brasil. Preferem se chamar Ice Blue, Mano Brown, Edy Rock... explica Caetano em seu longo depoimento.


