Caetano em Londrina: totalmente demais
Francelino França
De Londrina
Quem prestigiou o show Livro Vivo de Caetano Veloso, na última sexta-feira, saiu imensamente Odara do Ginásio Moringão, em Londrina. O público comprovou com os sentidos que Caetano é uma instituição da música brasileira e que sua fecundidade musical está a todo vapor, evidenciada pelo repertório eclético. Flertou com o brega e o dodecafônico com naturalidade.
Calorosos e entusiasmados, os londrinenses se mostraram dispostos a caetanear a cada gesto, a cada salto elegante e a cada música. Era alegria, alegria encontrar a presença morena de um ídolo do quilate de Caetano, reluzindo em plena forma e vigor físico no palco. Que fôlego!
Caetano Emmanuel Vianna Telles Veloso transpôs o cosmo sonoro baiano para cá. Viemos concluir, botar o ponto final na turnê aqui em Londrina, disse em tom festivo. Inserido na concretude vermelha da jóia criada pelo cenógrafo Helio Eichebauer, desfilou os motivos pelos quais ele arrebata gerações, transitando livremente entre o erudito e o pop.
Livro Vivo não deixou de ser uma celebração à Bahia, estação primeira do Brasil, como ele mesmo cantou. Um show desprovido de polêmicas ou declarações, mas com toques antropológicos sobre a origem da música Manhatã. Do repertório divino, maravilhoso, alguns destaques: a sensível interpretação de Prenda Minha, apenas dois focos de luz e voz foram suficientes para segurar a respiração do público. Caetano também cantou lindamente Drão. Acentuou a melodiosidade de Linha do Equador e Luz de Tieta.
Bossas, dengos e muita baianidade nos velhos sucessos, do mais ácido dentre os doces bárbaros, se transformaram em um coro uníssono em Terra, O Leãozinho, Você é Linda e Baby. No bis, a boa surpresa foi Sampa, já cristalizada no inconsciente do povo mais musical do planeta.
O público de todas as faixas etárias estava literalmente ávido por sons dançantes. A vibração por qualquer sinal de movimento e ritmo era evidente. Nossa predestinação em querer em qualquer ocasião soltar os demônios.
Das mais de 500 páginas do livro Verdade Tropical, recheados de pensamentos e opiniões livres, ele reverenciou a amizade transcendental com Gilberto Gil, lendo o seguinte trecho durante o show: eu sentia alegria por Gil existir.
Apesar de o megassucesso Sozinho ter sido acompanhado com entusiasmo pelo público, foi a desconhecida How Beautiful Could Being Be a mais festejada. Todos foram arrebatados pela batida, pelo embalo da criação de Moreno Veloso. Essa foi uma oportunidade dos músicos mostrarem que também são bons de requebros.
O show Livro Vivo foi totalmente demais, indiscutivelmente, pelo time de músicos, que pontuavam o show com latinidade africana. Os meninos da percussão quatro garotos baianos , um escândalo de talento e sex appel, como apregoou o próprio Caetano, trazem o ritmo no código genético. Outro destaque musical foi a presença do diretor musical, instrumentista e arranjador Jaques Morelenbaum, um dos mais importantes do mundo, rara oportunidade de assisti-lo ao vivo por essas terras.





