Salvador, 19 (AE) - Acalentado há anos pelo cantor e compositor Caetano Veloso, o encontro entre o músico de Santo Amaro da Purificação (BA) com o cineasta italiano Federico Felini e a mulher dele, a atriz Giulietta Masina, nunca ocorreu, fisicamente. Mas a admiração pelo autor de filmes marcantes como "Os Boas Vidas", "Noites de Cabíria" e "Amacord" foi tanta
expressada em entrevistas de Caetano nas temporadas pela Itália
que ele foi convidado a se apresentar na velha Rimini, cidadezinha do diretor, para prestar a homenagem que parece estar preparando desde a infância, povoada pelas imagens fellinianas.
O CD do show, gravado em outubro de 1997, Omaggio a Federico e Giulietta, contendo 20 músicas, 19 em português e 1 em italiano, foi lançado no fim de semana, em Salvador.
O disco demorou quase dois anos para sair porque, a princípio, Caetano não tinha gostado da própria voz no dia do show. "Tive um problema que até então desconhecia, bem no fundo da laringe, que quase me impedia de emitir som, fazendo que o controle da afinação e, sobretudo, das intensidades se limitasse exasperadamente", disse. Emoção? Ele acha que sim, pois havia uma atmosfera de tristeza, orgulho exaltado e "vagos medos ligados ao sentido de minha vida". Some-se a isso o dia úmido e frio de Rimini.
O convite para o show foi feito pela irmã de Felini, Maddalena. Numa carta escrita a Caetano, Maddalena contou que Giulietta conheceu a canção que ele havia composto sobre ela (Giulietta Masina) e ficou muito emocionada. Como o casal morreu antes do encontro com o músico baiano, Maddalena sugeriu a apresentação em Rimini.
O repertório do show/CD aproxima, na visão de Caetano, Rimini e Santo Amaro da Purificação. Ele escolheu as músicas a partir das lembranças da infância e adolescência, que se entrelaçam com a obra felliniana. "Quando assisti a Os Boas Vidas no cinema de Santo Amaro, percebi que aqueles rapazes do filme representavam as mesmas aspirações e preocupações minha e de meus amigos", disse. Até uma cena de hipnotismo de um filme de Fellini teve episódio semelhante em Santo Amaro, com um amigo de Caetano, Chico Mota.
Cajuína e Lua, Lua, Lua, Lua inspiraram Giulietta Masina. O tema que Nino Rota fez para "Amacord" lembram muito Coração Materno e a marcha Dama das Camélias. Também incluiu no CD Que não se Vê (dedicada ao cineasta Marcello Mastroianni), música de Rota em que pôs letra. Chega de Saudade entrou por ser fundamental na formação da sensibilidade de Caetano tanto quando o filme "La Strada".
Para o lançamento do CD, a gravadora Universal escolheu o Solar do Unhão, monumento baiano do século 17. O local foi decorado com cartazes dos filmes de Fellini e personagens do imaginário do autor, como a prostituta gorda de "Amacord". Na festa, Caetano assistiu pela 15ª vez, com os convidados, a "Noites de Cabíria" e, mais uma vez, chorou.

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